Vermelho muito escuro

Raul Cecilio
1990



Mariana – mulher de 40 anos, veste-se elegantemente
Alexandre – seu filho, 18 anos
João – delegado de polícia, veste-se mal

CENÁRIO

Sala de uma casa de classe média em São Paulo, anos de 1990. À direita (em relação aos atores) fica a porta de entrada. Encostada à parede da direita há uma mesa com alguns livros e um telefone. À frente-direita, encontram-se algumas poltronas e cadeiras em torno de uma mesa de centro, criando um ambiente de sala de estar. Ao lado de uma das poltronas, há uma mesinha com um abajur. À esquerda, fica a passagem para o restante da casa. À esquerda-fundo, uma escrivaninha com uma máquina de escrever e uma cadeira.


CENA 1


Mariana chega da rua com alguns livros e o jornal. Coloca-os sobre a mesa à direita e põe-se a arrumá-los. Alexandre entra pela esquerda.

Alexandre – Mamãe!

Mariana – Bom dia, meu filho!

Ele se aproxima e beija-a no rosto.

Alexandre – Bom dia. A senhora já saiu?

Mariana – Levantei cedo. Fui comprar alguns livros.

Volta-se e continua a arrumá-los.

Alexandre – Tem café pronto?

Mariana – Alexandre, com quantos anos você está?

Alexandre – Você sabe, faço dezoito em novembro.

Mariana – Você já se alistou?

Alexandre – Ainda não.

Mariana – Não é este o semestre em que você deveria se alistar?

Alexandre – É sim senhora.

Mariana – Não demore meu filho. Essas coisas são chatas. É bom não complicá-las mais.

Alexandre – Não se preocupe, vou ver isso logo. Não gosto de coisas complicadas.

Mariana – Tem café fresco na cozinha. Vá tomar.

Alexandre sai. Mariana termina de arrumar os livros, dá uma ligeira olhada no jornal e depois, senta-se e começa a escrever à máquina. Logo depois, Alexandre volta.

Mariana – Vai sair?

Alexandre – Sim senhora. Vou ver uns amigos, tchau!

Mariana – Tchau!

Mariana continua a escrever. Logo depois, a campainha toca. Ela vai atender. Abre a porta e, mostrando-se um pouco surpresa, demora a falar.

Mariana – João!

(voz de fora) – Mariana!

Mariana – Há quanto tempo!

(voz de fora) – Quase dois anos!

Mariana – Por favor, entre.

João entra.

João – Espero não estar sendo inconveniente por aparecer assim, sem avisar.

Mariana – De forma alguma. Eu apenas fiquei um pouco surpresa.

João – Como você está?

Mariana – Bem.

João – Trabalhando?

Mariana – Sim. Estou escrevendo um artigo sobre sociologia.

João – Sociologia?

Mariana – Sobre os distúrbios que as diferenças sociais provocam no comportamento das pessoas e a ilusão de segurança que certos papéis na sociedade proporcionam.

João – E os romances?

Mariana – Cheguei à conclusão de que não tenho jeito para escrevê-los.

Dirigem-se às poltronas.

Mariana – E você como está?

João – Bem.

Mariana – Trabalhando?

João – Bastante. Só vou parar quando me aposentar.

Mariana – Então?... Qual a razão dessa visita surpresa?

João – Faz algum tempo planejava vir, mas sempre aparecia uma coisa ou outra que me impedia. Hoje vim nem sei bem por quê. Acho que não tinha nada para fazer.

Mariana – Fez bem, fez muito bem.

João – A última vez que nos vimos foi...

Mariana – Foi quando Alexandre faleceu.

João – Ah! Sim...

Mariana – Depois, você não voltou mais.

João – Estive trabalhando. Nunca tinha tempo.

Mariana – Durante o primeiro ano, senti muito a falta dele. Depois me acostumei.

João – Eu não deveria tê-la feito lembrar.

Mariana – Não tem importância. É bom enfrentar os fantasmas. Além disso, há muitas coisas boas para serem lembradas.

João – Também tenho me sentido só.

Mariana – Vocês eram grandes amigos. Estudaram juntos e depois trabalharam juntos.

João – É..., foi há tanto tempo...  As coisas vão acontecendo, o mundo vai mudando e, nem sempre, a gente se dá conta. Às vezes, tenho a impressão de que fiquei para trás e as coisas que experimentei também. As pessoas com quem vivi, ficaram para trás...   O time para o qual eu torcia ficou para trás. É claro que novos jogadores vieram, vieram novos técnicos, o nome ainda é o mesmo, mas o time mudou, é outro, outras pessoas torcem por ele...   Lembro que havia um refrigerante que eu sempre pedia. Todo mundo pedia aquele refrigerante. Hoje tem um de nome igual. Os jovens gostam. Dizem que é o mesmo. Mas o gosto é outro. Não é o mesmo que costumávamos pedir...

Mariana – Vocês se conheceram no primeiro ou no segundo ano?

João – No primeiro.

Mariana – Então começaram o colégio juntos?

João – Sim. Naquele ano, só passei por causa dele. Alexandre era o melhor aluno da classe.

Mariana – E você o melhor amigo dele.

João – Amigo que dava trabalho. Sempre fui mau aluno. Nunca conseguia entender nada do que ensinavam. Só compreendia depois, quando Alexandre me dava aulas particulares. Ele era realmente bom.

Mariana – Ele era...

João – Nos esportes ele também era o melhor, mas nisso eu quase o superava. Formávamos uma dupla imbatível. Nós nos entendíamos sem que fosse preciso dizer nada. Assim que um começava a armar uma jogada, o outro já se colocava na posição certa, aguardando um passe, um lançamento, pronto para continuar o que o outro havia começado.

Mariana – Vocês também formavam uma grande dupla trabalhando.

João – Nos três anos em que estudamos juntos, ganhamos todos os campeonatos da escola. Só uma vez, quase perdemos. Alexandre sofreu uma contusão e ficou três semanas sem poder jogar. Eu me senti abandonado. Parecia que não era capaz de vencer aqueles times sozinho. Os outros colegas continuavam jogando comigo, mas era praticamente como se não existissem. Nunca foi tão difícil jogar. Alexandre fazia com que tudo parecesse fácil. Sem ele, as coisas tornavam-se mais ameaçadoras do que realmente eram. Eu me sentia fraco. Há dois anos, desde sua morte, tenho sentido o mesmo em relação ao trabalho.

Mariana – Tenho aprendido a lutar sozinha.

João – Você já leu o jornal de hoje?

Mariana – Dei apenas uma olhada.

João – Leu sobre o caso do garoto que foi assassinado na Penha?

Mariana – Não.

João pega o jornal, abre-o e dá a Mariana.

João – Estou trabalhando nesse caso agora e me sinto perdido. Era um rapaz de dezessete anos, foi encontrado perto dos trilhos. Não creio que o assassino tivesse a intenção de roubá-lo. Nada do que possuía desapareceu, documentos, dinheiro, relógio, estava tudo lá. Parece que o interesse era outro. Estranhamente, não havia sinais de violência. Foram feitos os exames de perícia e não se descobriu nada, nenhum sinal de agressão, nem de drogas, nem remédios. Sua mãe conta que era um ótimo filho, trabalhador, estudioso, bom aluno, tinha muitos amigos, não fazia inimizades entre os rapazes da escola nem do bairro. Gostava de jogar futebol, sair com os amigos, paquerar...  O assassino só deixou uma pista, um sinal, um enigma. O rapaz estava com os lábios sujos por um batom vermelho muito escuro.

Mariana – Será que isto não significa que se trata de um caso amoroso?

João – Talvez, mas mesmo assim, tudo continua remoto. Ele não tinha namorada, somente alguns encontros casuais, algumas paqueras. As meninas de quem mais se aproximou são todas bem educadas, humildes e de boas famílias. Não há envolvimento com traficantes, nem assaltantes, nem pessoas com passado sujo. Nenhum dos amigos dele tem passagem pela polícia.

Mariana – É..., difícil não?

João – É... é difícil. Não sei mais onde procurar pistas e não sei o significado das que tenho. Se Alexandre estivesse aqui, tenho certeza de que ele saberia exatamente o que fazer.

Mariana – Ele era um bom policial.

João – Ele era o melhor...  Bem, preciso ir.

Mariana – Foi bom você ter vindo.

João – Eu estava precisando conversar um pouco.

Mariana – Volte outras vezes, sempre que precisar.

João – Obrigado. É possível que eu volte sim.

Dirigem-se à porta.

João – E seu filho?

Mariana – Alexandre saiu.

João – Deve estar grande.

Mariana – Está, já é um homem.

João – As crianças são terríveis, não páram de crescer e se transformar. Tornam-se outras pessoas que não são aquelas que guardamos em nossas memórias. Será que ele se lembra de mim?

Mariana – Claro! Por que não se lembraria?

Mariana abre a porta, João sai.

João – Adeus. Obrigado pela conversa.

Mariana – Tchau! Volte outras vezes.

Mariana fica observando João se afastar, depois fica pensativa. A luz se apaga.




CENA 2

Mariana entra da esquerda, está lendo alguns de seus rascunhos.

Mariana – Alexandre! Não demore, você vai acabar perdendo o ônibus.

(voz de fora) – Já vai mãe!

Mariana volta a se ocupar com os papéis, depois coloca uma folha na máquina e começa a datilografar. Alexandre entra carregando alguns livros.

Alexandre – Tchau! Preciso correr, estou super atrasado.

Dá um beijo na testa de Mariana e dirige-se à porta.

Mariana – Alexandre!

Ele se volta.

Alexandre – O que é?

Mariana – Nada, queria apenas ver se você se vestiu direito.

Alexandre – Ora mamãe!

Mariana – Tenha um bom dia meu filho.

Alexandre – Tchau!

Alexandre sai. Mariana continua a escrever. Logo depois, a campainha toca, Mariana vai atender.

Mariana – João!

João – Bom dia Mariana, espero não estar incomodando.

Mariana – Absolutamente. Ia começar a escrever, mas não é nada importante.

João – Nosso encontro, naquele dia, foi tão agradável que achei que seria uma boa idéia conversarmos um pouco mais, então...  como não tinha nada para fazer pela manhã, resolvi começar o dia de uma maneira um pouco diferente.

Mariana – Muito bem. Às vezes, não há nada melhor do que uma boa conversa.

João – Principalmente se for com uma boa companhia.

Mariana – Deixe de bobagens e venha sentar-se.

Dirigem-se às poltronas.

Mariana – Desde aquele dia, tenho pensado muito.

João – Ah! Eu sinto muito, não pretendia deixá-la perturbada. Esteve pensando em Alexandre, naturalmente.

Mariana – Não. Na verdade, foi bom termos conversado sobre ele. Foi a primeira vez, desde sua morte, que não fiquei triste ao mencioná-lo. Isto significa que realmente já me recuperei.

João – Nesse caso, então...

Mariana – Tenho lido os jornais. Quando soube que você estava encarregado do caso daquele garoto, procurei me manter informada. Mas sinceramente, talvez preferisse ter ficado à parte, estou assustada. É verdade que houve mais dois casos?

João – Sim, um na Móoca e outro na Vila Mariana.

Mariana – Semelhantes àquele?

João - Sim. Os rapazes eram bem jovens, quatorze e dezesseis anos, estudavam, tinham bom relacionamento com as famílias e os amigos.

Mariana – E os crimes?

João – Parecidos. Não foram roubados, não havia sinais de violência, estavam com os lábios sujos de um batom vermelho muito escuro.

Mariana – Meu Deus! O que será que isto significa?

João – Ainda não sabemos, mas vamos descobrir. Agora que há mais casos, vamos compará-los. Com certeza, isto nos trará alguma idéia de quem possa ser o assassino.

Mariana – Acha que conseguem descobri-lo?

João – Sim, sem dúvida!

Mariana – Em quanto tempo?

João – Bem...  não é possível dizer.

Mariana – Nem aproximadamente?

João – Impossível.

Mariana – Assusta-me saber que há um louco solto por aí. Faz-me sentir insegura.

João – Procure não pensar nisso. Não há nada que você possa fazer. Já tomamos todas as providências.

Mariana – Detesto me sentir fraca.

João – Eu também.

Mariana – A última vez em que me senti assim, foi na morte de Alexandre.

João – Creio que senti algo semelhante.

Mariana – Desde então, tenho me esforçado para ser forte. Acredito que ele gostaria que eu fosse assim e sei que aos poucos estou conseguindo ser.

João – Também tenho lutado.

Mariana – Mas essas notícias...  Oh! Desculpe-me, estou sendo egoísta. Fico falando de minhas preocupações com estes assassinatos e me esqueço que você deve estar muito mais preocupado do que eu.

João – Bem... na verdade estou mesmo querendo conversar.

Mariana – Sim, mas certamente sobre coisas mais agradáveis. Diga-me, você gostaria de um café?

João – Sim, obrigado.

Mariana – Ótimo, trago num minuto.

Mariana sai.  Logo depois, volta com uma bandeja e xícaras.

Mariana – Se não me engano, você era um dos vários alunos aquela escola que gostavam do café que eu fazia.

João – Era o mais devoto de todos.

Mariana – Naquela época, papai ainda tinha a fazenda e recebíamos café de lá. Ah! Era outra coisa, outro sabor.

João – E a fazenda? O que houve com ela?

Mariana – Vendemos. Foi uma pena, a sede era uma beleza. A casa foi construída no século XIX. Passei minha infância lá. Só saí para estudar. Vim fazer o colégio aqui em São Paulo. Gostaria de tê-la mantido, mas com a morte de papai foi impossível. Nenhum dos filhos tinha vocação para fazendeiro. Vendemos e dividimos o dinheiro. Foi assim que comprei esta casa. O que foi ótimo na época. Estávamos morando numa casa muito pequena e nosso filho ia nascer. Alexandre estava começando na polícia e mal conseguíamos sobreviver com o que ele ganhava. Éramos tão jovens, estávamos casados há pouco tempo e ...  sabe do que me lembrei ontem?

João – Não.

Mariana – Dos nossos casamentos.

João – Ah!

Mariana – Pensei que meu casamento havia sido o mais bonito que alguém poderia ter, mas seis meses depois, quando você e Sofia se casaram, eu vi que para estas coisas não há limites. Sofia realmente sabia como organizar uma festa. Lembra-se no colégio? Ela ficava encarregada por todas.

João – Ela sempre foi muito organizada.

Mariana – Foi numa festa que nos conhecemos, lembra-se?

João – Claro, como poderia me esquecer?

Mariana – Era início de ano. Vocês estavam recebendo os calouros. Sofia e eu vínhamos transferidas de outras escolas. Eu estava entrando para o último ano e ela para o segundo. Ela não gostou da festa e disse que, numa escola que fazia festas como aquela, ela não estudava. Então, assumiu a responsabilidade das seguintes e, desde aquele dia, a escola nunca esteve tão animada.

João – Sofia era muito dinâmica.

Mariana – Como ela está?

João olha Mariana atentamente e hesita em responder.

João – É... nós nos separamos.

Mariana – Separaram-se? Quando?

João – Quatro meses depois da morte de Alexandre.

Mariana – Oh!... eu sinto muito.

João – Não! Foi melhor assim. Havíamos chegado a um ponto em que não havia mais volta. Não podíamos continuar juntos. É engraçado... de repente, a gente percebe que não ama a pessoa com quem viveu por mais de quinze anos.

Mariana – Mas... quando vocês se casaram...

João – Creio que, mesmo naquela época, eu não a amava. Eu tentava me enganar. Havia tantas coisas acontecendo... me sentia confuso... acho que foi o início de minha solidão. Casei-me porque estava me sentindo só. Todos os meus amigos estavam se casando... indo embora... Ela era meiga, inteligente, bonita, era fácil sentir-se bem a seu lado, mas eu não a amava.

Mariana – Sofia era a garota mais cobiçada do colégio.

João – Não! Ela era a segunda. A primeira era você.

Mariana – João!

João – É verdade! Todos os rapazes ficavam caídos por você. Coitados... naturalmente, você acabou se apaixonando por Alexandre, o rapaz mais cobiçado do colégio.

Mariana – Isso não é verdade. Você e Sofia formavam um belo casal, tinham tudo para serem felizes.

João – Sim... acredito que ela tenha sido feliz por algum tempo, até perceber a verdade.

Mariana – João! Não seja tão severo consigo próprio.

João – Sabe por que me casei?

Mariana – Por que?

João – Porque tinha medo... medo de ficar sozinho, medo de ser inferior aos outros.

Mariana – Que bobagem. Todos nós temos os mais diversos tipos de medo.

João – Tanto esforço... pra quê?

Mariana – Não seja tão pessimista. Também estou sozinha e estou bem.

Olham-se carinhosamente por alguns instantes.

João – Você tem um filho.

Mariana – É verdade. Alexandre tem sido a principal razão de minha vida. Não sei o que faria sem ele.

João – Onde ele está?

Mariana – Foi à escola. Só volta no final da tarde.

João – Talvez quisesse ter um filho. Mas vejo que foi melhor não tê-los. A separação teria sido bem mais difícil havendo outra pessoa. Bem... preciso ir embora. Preciso trabalhar.

Mariana – Eu também. Preciso escrever.

Dirigem-se à porta. Abraçam-se.

João – Obrigado por me aturar.

Mariana – Não é esforço algum. Pelo contrário, trata-se de um grande prazer.

João – Adeus!

Mariana – Até breve.

Mariana volta a sentar-se, fica pensativa. A luz se apaga.


CENA 3


Mariana entra trazendo uma bandeja com duas xícaras e coloca-as na mesa do centro. Em seguida, a campainha toca e ela vai atender.

Mariana – Oi João, entre.

João – Espero não estar incomodando.

Mariana – Não está. Eu sabia que você viria.

João – Sabia?

Mariana – Sim. Venha tomar um café.

Sentam-se, Mariana dá uma xícara para João e serve-se da outra.

Mariana – Estava querendo muito falar com você.

João – O que aconteceu?

Mariana – Ora... são esses crimes. Estou tão nervosa!

João – Ah!

Mariana – Mais seis assassinatos! Vocês não estão fazendo nada?

João – Estamos! Claro que estamos!

Mariana – Precisam ser mais rápidos. Nove garotos foram mortos, em vários bairros da cidade, Jabaquara, Santo Amaro, Morumbi, Pinheiros, Lapa. João, isto é um círculo, estou me sentindo cercada. Quantos mais serão necessários? Oh! Meu Deus!

João não diz nada. Observa-a atentamente.

Mariana – Diga-me que não há perigo, por favor!

João – Não há perigo Mariana. Estamos quase certos de quem é o assassino e iremos pegá-lo em breve.

Mariana – Você não está dizendo isso só para me acalmar?

João – Não, não é só para acalmá-la. É verdade.

Mariana – Confio em você João. Que bom saber disso! Assim me sinto mais aliviada.

João – Onde está seu filho?

Mariana – Alexandre saiu!

João – Nunca o encontro.

Mariana – Ele quase não pára em casa, tem muitos amigos.

João – Por que você pôs esse nome nele?

Mariana – Alexandre? É engraçado... quando moça, eu tinha horror a esse costume de pais e filhos com o mesmo nome. Achava ridícula a idéia de querer perpetuar num filho a imagem do pai. No entanto, quando ele nasceu, senti que só poderia chamá-lo de Alexandre. Meu marido foi a pessoa que mais amei, e sempre tive medo de perdê-lo. Parecia-me que o menino seria uma continuação. Um seria um pouco o outro. Hoje, vejo que estava certa. Eles são tão parecidos, tanto na feição quanto no jeito de ser. Alexandre pai ainda vive em Alexandre filho. Ainda o tenho perto de mim. Acho que foi por isso.... Quantas coisas acontecem na vida da gente... filhos, casamento, noivado... Lembra-se de nossa festa de formatura?

João – Formatura de quem? Sua e de Alexandre?

Mariana – Sim.

João – Lembro.

Mariana – Antes de irmos para a festa, ele passou em casa e ficamos noivos.

João – E quando chegaram, surpreenderam toda a turma.

Mariana – Aquela foi uma das festas organizadas por Sofia. Não foi nessa mesma noite que vocês começaram a namorar?

João – Foi, na mesma noite.

Mariana – Como você demorou a se decidir. Sofia esteve apaixonada por você o ano inteiro e só no último dia conseguiu que você se resolvesse.

João – Eu tinha minhas razões para ser cauteloso.

Mariana – Razões? Se nó mulheres fôssemos esperar por vocês homens, o mundo parava.

João – É possível que sim. No final, chega-se à conclusão de que vocês é que nos fisgam. Pelo menos, foi o que aconteceu comigo e com Alexandre.

Mariana – A sua sorte foi ter repetido de ano e não ter se formado.

João – Chama a isto de sorte?

Mariana – Claro, só assim você evitou abandonar o colégio e perder uma garota incrível.

João – Era disso mesmo que eu estava falando.

Mariana – Ora, João, a cor de seu humor é muito escura para o meu gosto.

João – Desculpe-me, mas não estava brincando.

Mariana – Quando? Quando decidiu namorar Sofia?

João – Também. Eu tinha boas razões para namorar com ela.

Mariana – Mesmo não a amando?

João – Na época eu achava que poderia vir a amá-la.

Mariana – Será mesmo? João, você sempre foi muito misterioso, mesmo não a amando, casou-se com ela. Você disse que tinha um bom motivo?

João – Sim... eu...

Ouve-se um barulho na porta. Alexandre entra.

Alexandre – Mamãe?

Mariana – O que é?

Alexandre – Alguém ligou para mim?

Mariana – Não. Eu não atendi. Meu filho, você se lembra do dr. João? Ele é delegado de polícia, trabalhou com seu pai.

Alexandre aproxima-se sorridente. João mostra-se um pouco incomodado.

Alexandre – Lembro sim! Às vezes, quando ia à delegacia eu o via por lá. Como está?

João – Bem, obrigado.

Alexandre – O senhor trabalhou com papai durante muito tempo?

João – Quatorze anos.

Mariana – Nós nos conhecemos no colégio, estudamos todos juntos.

Alexandre – Neste caso, então, parece que reencontramos um antigo amigo da família.

João – Creio que sim, embora eu não estivesse perdido.

Mariana – Não, mas bem que poderia ter estado um pouco mais próximo. Não teria feito mal algum.

João – Não tenho muita certeza, o meu humor sempre foi péssimo, eu poderia contagiá-los.

Mariana – Não se preocupe, tornei-me imune depois de todos aqueles anos.

Alexandre abraça Mariana.

Alexandre – E quanto a mim, herdei a imunidade dela. Foi uma das poucas coisas boas que ela me deixou.

Mariana – Sim, porque todas as outras ele herdou do pai.

João – Se vocês não se importam, estou indo.

Mariana – Já?

João – Tenho algumas coisas para fazer na delegacia.

Mariana – Mas você acabou de chegar! Pensei que fosse ficar um pouco mais.

João – Quem sabe uma próxima vez.

João dirige-se à porta, os outros o seguem.

Mariana – Que pena! Justamente hoje que eu não tinha nada para fazer.

João – Obrigado pelo café, estava ótimo.

Alexandre – Espero que o senhor volte. Gostaria de ouvir sua versão a respeito do passado de meus pais. Sabe... ela não me conta muitas coisas.

Mariana – Alexandre, tenha modos.

João – Assim que for possível, virei. Será um prazer. Adeus.

Alexandre – Adeus.

Mariana – Volte logo.

Depois que João sai, Mariana senta-se numa poltrona, pensativa.

Alexandre – Estou enganado ou ele saiu um pouco precipitadamente?

Mariana – Ele saiu precipitadamente.

Alexandre – Será que foi por minha causa?

Mariana olha para ele, sorri e lhe estende a mão. Alexandre senta-se a seu lado.

Mariana – Se foi, azar o dele. Não sabe o que está perdendo.

Alexandre – Por que ele veio?

Mariana – Não sei, conversar eu acho.

Alexandre – Nas vezes em que o encontrei na delegacia, ele nunca foi simpático comigo.

Mariana – É mesmo?

Alexandre – Sim. Por que ele não vinha à nossa casa na época de papai?

Mariana – Ele sempre foi muito reservado.

Alexandre – Estranho aparecer assim de repente, não acha?

Mariana – É... um pouco. Mas não vamos mais falar nisso, está bem?

Alexandre – Está bem.

 Mariana – Conte-me como foi o treino hoje...

Saem enquanto conversam.
A luz se apaga.


CENA 4


Luzes apagadas. Vê-se a luz de uma lanterna surgir pela direita e ouvem-se os passos de uma pessoa caminhando lentamente. Quando esta pessoa encontra-se no meio do palco, a luz do abajur é acesa. A luz da lanterna volta-se em sua direção. Mariana está sentada numa das poltronas, vestindo roupão e chinelos. João, no meio do palco, mostra-se surpreendido.

João – Mariana!

Mariana – Boa noite, João!

João – Eu...

Mariana – Eu sabia que você viria.

João – Sabia?

Mariana – Sim, quer tomar um café?

Mariana mostra a mesa de centro, onde está uma bandeja com xícaras.

João – Não, obrigado!

Mariana – Quer sentar-se então?

João apaga a lanterna e senta-se numa poltrona.

Mariana – Acho que há uma série de coisas que você precisa explicar.

João – O que você quer saber?

Mariana – Por que você está aqui?

João – Pensei que você soubesse.

Mariana – Sei. Sei o que veio fazer, mas quero saber por quê.

João – Você sabe porque, mas finge não saber.

Mariana – O que você quer dizer?

João – Ora Mariana, não se faça de inocente... você sempre soube que eu viria. Você sempre esteve me esperando.

Mariana – Não estou entendendo. Procure ser mais claro.

João – Está bem. Se você prefere, mas talvez a conversa se torne longa.

Mariana – Não tem problema. Tenho a noite todo para ouvi-lo.

João – Teremos que recordar o passado.

Mariana – Ótimo, pelo menos nisso temos bastante experiência.

João – Lembra-se do ano em que você e Sofia chegaram ao colégio?

Mariana – Claro! Como poderia me esquecer?

João – Pois bem, eu repeti naquele ano. Está certo que sempre tive um pouco de dificuldade, mas bastava alguém me explicar com paciência para eu compreender. Alexandre sempre estudava comigo, mas naquele ano isso não aconteceu e eu repeti.

Mariana – Você está atribuindo a Alexandre a culpa por ter repetido de ano?

João – Calma, ainda é cedo para tirar conclusões. Há outras coisas para serem lembradas. Quando você chegou, qual foi a primeira pessoa da escola a lhe dar atenção?

Mariana - ... foi você. Na verdade, você foi um grande amigo. É sempre difícil quando somos novatos num ambiente.

João – Mais do que simplesmente dar apoio, procurei estar o tempo todo a seu lado, mantive-me atento a cada sinal de melancolia, ansiedade ou solidão que você apresentasse e procurei sempre atendê-la prontamente. E Alexandre? Naquela época, ele só se interessava pelo futebol, pelos passeios, pelas festas. Ele era o centro das atenções e estava satisfeito com isso. Mal tomou conhecimento de sua presença. Mesmo assim, quando havia jogo, você vibrava mais quando ele fazia gol, e eu percebia isso. Nos passeios, embora eu a convidasse, você procurava sentar-se ao lado dele e, invariavelmente, dava um jeito para voltar no mesmo carro em que ele pegava carona. Nas festas, você usava o cabelo do jeito que ele gostava, embora às vezes eu lhe dissesse que o preferia de outro jeito. Você só pensava nele.

Mariana – Eu estava apaixonada por ele.

João – Mesmo sabendo que ele não a percebia.

Mariana – Talvez por isso mesmo.

João – Mas você sabia que se tratava apenas de uma questão de tempo. No fim, você conseguiu conquistá-lo. Às vezes, acho que ele só reparou em você porque eu havia reparado antes. Ele precisava manter-se superior a mim.

Mariana – Você está sendo injusto em seu julgamento. A paixão é um sentimento sobre o qual não exercemos controle. Se, apesar de toda sua atenção, eu me apaixonei por Alexandre e ele por mim é porque havia algo forte entre nós. É muito fácil atribuir ao destino a responsabilidade dos acontecimentos, mas uma coisa é certa, o coração não se engana, nós sempre sabemos quando uma pessoa é capaz de nos fazer feliz. Além disso, é preciso trabalhar corretamente para que um relacionamento tenha sucesso. Não adianta fingir que não sentimos o que sentimos.

João – De fato, você trabalhou muito bem, conquistou-o realmente. Depois que vocês começaram a namorar, até dos amigos ele se esqueceu. Chegou ao ponto de se atrasar para os treinos, coisa que jamais havia acontecido antes... Nunca mais consegui que estudássemos juntos... Você também se afastou. Nunca mais aceitou um convite meu para ir ao cinema ou a uma festa... Antes do final do ano, eu já sabia que iria repetir, mas quem se importava? Todos estavam tão felizes... A festa de formatura, da qual eu não iria participar, foi a última festa à qual eu quis ir com você. Convidei-a. Naturalmente, você não aceitou, mas nunca chegou a me dar uma resposta definitiva, deixou-me esperando... Pergunto-me se foi porque você sentia prazer em saber que eu gostava de você, mesmo não gostando de mim, ou se foi por falta de jeito, por sentir pena. Afinal, já devia estar claro que você estava apaixonada por Alexandre. Durante todo o ano, vocês haviam demonstrado, à escola toda, o que sentiam um pelo outro, só eu é que não via, ou fingia que não via... Então, quando vocês chegaram dizendo que haviam ficado noivos...

Mariana - ...então você pediu Sofia em namoro?

João – Sim.

Mariana – Pobre Sofia.

João – Aquela era a última festa, a última noite, o último encontro. Depois, cada um iria para seu lado, viver sua própria vida, e você iria com Alexandre.

Mariana – Sinto sinceramente que tenha sido dessa forma para você, mas não me arrependo da opção que fiz. Fui muito feliz enquanto vivi com Alexandre.

João – Outra coisa que me pergunto é se Alexandre me convidou para trabalhar com ele, quando ingressou na polícia, porque finalmente reconheceu que havia sido um amigo desleal.

Mariana levanta-se, parece irritada.

Mariana – Se você não compreendeu, então é porque realmente não sabe nada dos sentimentos humanos. Não havia arrependimento, nem compaixão, embora eu ache que você mereça. Alexandre o convidou porque gostava de você. Ele achava que vocês iriam formar uma boa dupla trabalhando juntos... Diga-me uma coisa, você estava com Alexandre quando ele foi morto?

João – Como?

Mariana – Responda diretamente, estava ou não estava?

João – Naquela tarde, saímos para uma busca. Estávamos atrás de alguns traficantes e havia denúncias sobre um possível local de trocas. Alexandre dirigia as operações, ele requisitou reforços, havia muitos homens conosco.

Mariana – Sei disso, o que quero saber é o que aconteceu lá.

João – Não conseguimos surpreendê-los. Eles fugiram. Era fácil esconder-se naquele emaranhado de ruas e vielas. Alexandre nos separou em duplas e marcamos um local para nos encontrarmos. Quando chegamos ao local combinado, Alexandre havia sido baleado, perdera muito sangue e já estava praticamente sem sentidos, faleceu alguns minutos depois.

Mariana – O que quero saber é quem era a pessoa que Alexandre escolheu para formar dupla com ele.

João – Era eu.

Mariana – Meu Deus!... Era só o que eu precisava saber. O resto posso deduzir.

João – Você sempre preferiu os outros. Nunca deixou que eu me aproximasse. Eu precisava fazer alguma coisa.

Mariana – Ou seja, eliminar tudo o que me afastava de você. Quando li sobre todos aqueles crimes, percebi, logo de início, que só poderiam estar sendo praticados por uma pessoa calculista, que tivesse um objetivo muito claro. Agora vejo que não estava enganada quando achei que o alvo final seria assassinar o garoto mais inteligente, mais bem ajustado, mais admirado de todos. Um rapaz assim, só poderia ter tido um pai assim. E o fato de seu pai ter sido o deflagrador de um grande ciúme é a única coisa que pode explicar que ele seja vítima de um ódio tão grande. Todos aqueles crimes, que loucura! Naturalmente, eles eram necessários para ocultar a razão do crime final. Era preciso que parecesse tratar-se de mais um garoto como os outros, assassinado por um louco, um maníaco qualquer, que nunca seria identificado.

João – Eu não merecia ser desprezado daquela forma. Tudo poderia ter sido diferente, mas você preferiu assim.

Mariana – Eu não acredito! Você está querendo dizer eu sou responsável? Deve estar louco! Definitivamente, você está doente.

Mariana se aproxima de João.

Mariana – Deixe-me ver o que há em seu bolso.

João pega, de um dos bolsos do casaco, um batom e dá a Mariana que o abre e observa.

Mariana – Vermelho escuro. Esta é a cor do batom que eu usei em minha festa de formatura. Foi com este batom que, naquela noite, beijei os lábios de Alexandre. Agora só há uma coisa que posso fazer.

Mariana vai até o telefone.

João – Não. Ainda há outra coisa.

Mariana olha-o.

João – Diga-me, em algum momento fui correspondido?

Mariana – Você não merece esta resposta, seja ela qual for.

Mariana pega o telefone e disca.

Mariana – Alô?... É da delegacia de polícia? Eu gostaria de falar com o delegado de plantão, obrigada...

Enquanto Mariana aguarda que chamem o delegado, João levanta-se e caminha em sua direção. Com muito cuidado, ele pega o telefone da mão dela e desliga. Depois, enquanto fala, vai passando a mão em seu braço, ombros, pescoço e cabelos.

João – Orgulhosa!... Tão orgulhosa e segura de si. Isso é o que mais me encanta em você. Nada abala sua postura, seu bom humor, sua felicidade. Uma coisa que sempre me intrigou é como você consegue ser tão ajustada, sempre estudiosa, trabalhadora, boa aluna, boa amiga, boa esposa, boa mãe. Sempre perfeita, quase uma deusa...

João coloca-se atrás de Mariana, passa os braços por sua cintura e puxa-a contra seu corpo. Encosta o rosto em seus cabelos.

João – Seus cabelos. Quantas vezes sonhei com seu cheiro, mesmo sem saber como era. Eu a quero Mariana. Quero loucamente. Quero muito, muito...

Mariana tenta livrar-se.

João – Não! Não fuja de meu abraço. Não adianta resistir. Desta vez, você não vai me escapar. Quer saber como aqueles garotos foram mortos? Ah!... da maneira mais simples, asfixia. Bastava tapar-lhes o nariz e a boca. Por isso não havia marcas. Mas você deve estar se perguntando como eles não resistiam. Isso era fácil evitar, bastava adormecê-los. Foi pena você não ter me perguntado o que havia no outro bolso de meu casaco. Acho iria gostar de saber.

Enquanto a segura pela cintura, com um braço, com o outro João retira do bolso um lenço e um vidro com um líquido. Enquanto fala, vai embebendo o lenço com o líquido.

João – Você já viu alguém adormecer sob o efeito do éter? É rápido, muito rápido. Pressionando-se um lenço molhado em seu nariz por pouco mais do que um minuto a pessoa adormecerá durante horas e estará a nosso inteiro dispor. Poderemos usá-la da forma que desejarmos e ela não terá como resistir.

Depois de molhar o lenço, João coloca o vidro na mesa, ao lado do telefone. Enquanto fala, João mantém o lenço a uma distância que Mariana possa vê-lo, porém sem aproximá-lo demais para não fazê-la dormir imediatamente.

João – Seu cabelo, tão macio... eu já sabia... Seu pescoço, seus ombros... Quantas vezes...quantas vezes sonhei com isso...

De repente, João pára, como que saindo de um transe.

João – Mariana, hora de dormir.

Antes que João consiga pressionar o lenço contra o rosto de Mariana, ela segura seu braço. Com a mão livre, ela pega o vidro de cima da mesa e joga o líquido no rosto dele. João tenta imobilizá-la, ela tenta livrar-se. Os dois perdem o equilíbrio e caem, rolam para trás do sofá. Ouvem-se barulhos de luta.

A luz se apaga.


CENA 5


Quando a luz se acende, Mariana está de roupão e chinelos, sentada à escrivaninha, escrevendo. Alexandre entra, está de pijama.

Alexandre – Mãe?

Mariana pára e abraça-o fortemente. Ele, sem compreender o que se passa, abraça-a também.

Mariana – Meu filho! Meu filho!

Alexandre observa-a e faz carinho em seu rosto.

Alexandre – Você não dormiu?

Mariana – Não, estive escrevendo.

Alexandre – Um artigo?

Mariana – Não. Um romance. E você? Como dormiu?

Alexandre – Dormi bem, mas tenho a impressão de que acordei e ouvi vozes durante a noite.

Mariana – João esteve aqui.

Alexandre – Sozinho?

Mariana – Não, alguns policiais estiveram também.

Alexandre – O que queriam?

Mariana – Nada de importante, não se preocupe. Ah! Sim... uma boa notícia, prenderam o assassino do batom vermelho.

Alexandre – Que bom!

Mariana abraça-o novamente.
A luz se apaga.




Documentos históricos








Catálogo do FITA 90, quando foram apresentadas as peças Vermelho muito escuro e A arte de matar.