Raul Cecilio
1990
Adaptação livre do filme “Deathrap”
(Armadilha mortal)
Warner Bros, Estados Unidos, 1982
Direção de Sidney Lumet
Com Michael Caine, Christopher Reeve e Dyan Cannon
Personagens
Cecilio – produtor de cinema, sócio de Ícaro e marido de Eliana
Eliana – segunda mulher de Cecilio, ex-atriz de cinema
Ícaro – sócio de Cecilio
Cenário
Sala de estar de uma casa de campo. No centro há um sofá de três lugares
com almofadas. Ao lado do sofá, uma mesinha com telefone. Na parede da
esquerda, à frente, um bar com copos e garrafas. Na mesma parede, ao fundo, a
porta de entrada. Na parede ao fundo, uma grande vidraça com cortinas que
permanecerão sempre abertas. Na parede da direita há duas portas, a do fundo se
comunica com o quarto, a da frente com a cozinha. Entre elas há uma
escrivaninha.
ATO 1
Entram Cecilio e Eliana carregando malas.
Eliana - Ah! Nem acredito!
Finalmente vou poder descansar! Esta semana parecia que não ia
acabar!
Eliana deixa as malas atrás do sofá e começa a examinar os móveis.
Eliana - Meu Deus! Que
sujeira! Que horror! Cecilio, precisamos contratar novos caseiros
urgentemente. Eu
devia estar maluca na hora em que mandei embora os antigos.
Também, eles eram
tão... grosseiros... mas pelo menos, a cada quinze dias, abriam a
casa e o ar se
renovava. A casa não pode ficar fechada. Veja só!
Passa o dedo sobre um móvel e mostra, de longe, para ele. Cecilio a
observa divertidamente.
Eliana - Querido, este fim de
semana você vai poder trabalhar no projeto de seu novo filme
com tanta
tranquilidade como nunca nem imaginou. Prometo que não irei perturbá-lo.
Só o chamarei para o
almoço e para o jantar, e não vou insistir para que se deite cedo.
Cecilio leva suas malas para o quarto. Eliana vai para a cozinha.
Eliana - Deixe-me ver como a
cozinha está
...............................................................
Que horror! Meu Deus! Parece que houve uma guerra
aqui! Esta casa esteve fechada
durante séculos!
Cecilio volta do quarto, senta-se no sofá, pega o telefone e começa a
discar. Eliana fala da cozinha.
Eliana - Cecilio, você já
escolheu a atriz que vai trabalhar em seu próximo filme?
Cecilio não responde.
Eliana – Será que eu não poderia?........
Cecilio continua no telefone, mas a ligação não se completa. Eliana vem
até a porta.
Eliana – Você está me escutando?
Cecilio continua no telefone. Eliana se aproxima.
Eliana – É que eu fico tão curiosa...
Cecilio coloca o fone no gancho.
Cecilio – Tenho a impressão de que há um minuto atrás ouvi você
dizer que neste final de
semana eu iria poder
trabalhar com tanta tranquilidade como nunca nem imaginei.
Você não me
perturbaria e só me chamaria para o almoço e para o jantar. Mas talvez
tenha sido apenas
impressão.
Eliana – Desculpe-me, estou atrapalhando você outra vez. Nunca o
deixo em paz, não é
mesmo?
Senta-se junto a ele.
Eliana – Mas é só uma perguntinha, não custa nada responder.
Cecilio – Muito bem. O que você quer saber?
Eliana – Você já escolheu a atriz?
Cecilio – Não.
Eliana – Será que eu não poderia?...
Cecilio – Não, você não poderia.
Cecilio pega o telefone e volta a discar, mas a ligação ainda não se
completa. Eliana, após a resposta de Cecilio, mostra-se magoada. Porém, após
alguns segundos, aproxima-se e afaga seus cabelos.
Eliana – Por que você é tão mau comigo? Você é injusto. Quando eu
era jovem, você sempre
pensava em mim. Você
me queria fazendo o papel principal em todos os seus filmes.
Mas depois... o que
aconteceu? Porque você não me quer mais? Eu estou ficando
velha, é isso? Você
perdeu o interesse por mim? É tão difícil ter certeza de que você
me ama...
(sem se desviar do telefone)
Cecilio – Eu a amo!
Eliana – Queria poder acreditar...
................................................
Para quem você está ligando?
Cecilio – Para o Ícaro.
Eliana fica pensativa.
Eliana – Para o Ícaro? Onde ele está?
Cecilio – Numa fazenda aqui perto?
Eliana – Aqui perto?
Cecilio – Sim, eu pedi a ele que fosse até lá para verificar o
local.
Eliana – Verificar o local?
Cecilio – Sim. Estou pensando em utilizá-la como locação para
algumas cenas do filme.
Descobri esta
fazenda no ano passado. Estava vindo para cá e o carro quebrou. É um
lugar muito bonito,
com um casarão antigo. Vou pedir a Ícaro que venha aqui para
conversarmos.
Eliana – Para conversarem?
Cecilio – Sim, vou pedir a ele que passe aqui assim que sair de
lá.
Eliana – Ah não! Por favor!
Cecilio – Shhhh! Está chamando!
Eliana fica aborrecida. Cecilio fala ao telefone.
Cecilio – Alô!... Alô! Por favor, eu gostaria de falar com o
Ícaro, é... é o rapaz que está olhando
a fazenda, é...
aquele que é do cinema..., está bem, eu aguardo. Obrigado.
Enquanto aguarda olha para Eliana.
Cecilio – Alô Ícaro, é Cecilio!
...........................
Você já estava de saída?
....................................
Ótimo! Então venha até meu sítio. Eu e Eliana estamos
aqui para passar o final de
semana. Venha e então conversaremos.
................................
Certo, até logo!
Desliga o telefone.
Cecilio – O que foi?
Eliana – Você nunca sabe o que aconteceu. Vive fazendo coisas que
eu não gosto e nunca sabe
o que aconteceu. Eu
não suporto o Ícaro.
Cecilio – Desculpe. Não imaginei que ele a aborrecesse tanto! Nós
iremos conversar um pouco,
depois ele irá
embora.
Eliana se levanta.
Eliana – Mesmo que ele fique apenas cinco minutos, será o
suficiente para estragar meu final
de semana.
Cecilio – Não entendo. No início, quando o conhecemos, vocês se
davam bem. Você parecia
gostar dele.
Eliana – Estava enganada. O tempo abriu meus olhos. Agora, é
preciso que o mesmo aconteça
com você.
Cecilio – De qualquer modo, ele é meu sócio. Eu preciso conversar
com ele. Às vezes,
precisamos fazer
coisas que não nos agradam. Seja paciente, por favor!
Eliana – Com tanta gente no mundo, você tinha que ser sócio
justamente dele?
Cecilio – Não se esqueça de que, além de sócio, ele é meu parente.
Eliana – Ainda mais essa!
Cecilio – Sim! Minha filha se casou com o irmão dele, lembra-se?
Eliana – Não posso compreender como você pôde ter uma filha com
sua primeira mulher.
Cecilio – Certas coisas não parecem ser tão terríveis enquanto as
estamos vivendo. Depois que
passam é que ficamos
admirados.
Eliana - ... ainda por cima, ele é trapaceiro.
Cecilio – Por favor, não comece.
Eliana – Para mim, ele é desonesto.
Cecilio – Você exagera.
Eliana – Eu exagero? Ele é desonesto e você ingênuo. Até hoje não
posso compreender como
você pôde se deixar enganar quando fizeram aquele
filme há três anos.
Cecilio – Não me deixei enganar. Eu sabia o que estava fazendo.
Eliana – Eu sei, você já me disse muitas vezes que acreditava no
filme.
Cecilio – Acreditava e acredito, “Páginas arrancadas” foi meu
melhor filme.
Eliana – Seu melhor filme? Foi um fracasso. Arruinou sua carreira.
Cecilio – Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O público não
vai a bons filmes. Não se
pode fazer tudo
pensando em dinheiro. É preciso haver um pouco de idealismo. Ir
atrás de um
objetivo.
Eliana – Eu sei, mas enquanto seu objetivo é fazer um bom filme, o
de Ícaro é ganhar dinheiro.
Cecilio – Eu e Ícaro fizemos um negócio justo.
Eliana – Aquilo foi trapaça. Você aceitou a condição de pagar
sozinho todos os prejuízos no
caso de o filme
fracassar.
Cecilio – Não havia outra alternativa. Eu não tinha dinheiro,
precisava da ajuda de Ícaro.
Eliana – Mas desde o início Ícaro se preveniu. Fez com que você
assinasse aquelas
promissórias. Agora,
ele as guarda como se fossem preciosidades.
Cecilio – Não acredito que ele tenha a intenção de me prejudicar.
Eliana – Então por que ele as guarda?
Cecilio – Talvez para me devolver, ainda vou resgatá-las.
Eliana – Como?
Cecilio – Com meu novo filme. Ganharei muito dinheiro.
Eliana – E você espera que Ícaro o ajude? Ele nunca fará isso.
Cecilio – Você acha?
Eliana – Claro!
Cecilio – Por quê?
Eliana – Porque ele sabe que você é muito melhor do que ele. Ele
tem inveja. Ele não só não irá
ajudá-lo, como fará
tudo para atrapalhar.
Cecilio – Acho melhor ele não fazer isso.
Eliana – Por que?
Cecilio – Se ele não me ajudar sou capaz de uma atitude drástica.
Eliana – Que atitude drástica?
Cecilio – Eu poderia mata-lo!
Eliana – Cecilio!
Cecilio – Por que não? Basta tomar cuidado para não ser pêgo.
Quero dizer, é preciso planejar
cuidadosamente cada
detalhe para não deixar pistas. Você sabe, a pena por
assassinato é cadeia
e geralmente passa-se alguns anos lá.
Eliana – Que horror! Como você pode falar assim?
Cecilio – Você acha que eu não seria capaz?
Eliana – Isso é que é pior, acho que seria.
Cecilio – Então não se preocupe, se eu chegar a fazer isso, pode
estar certa de que estarei
fazendo tudo com a
mais perfeita segurança.
Eliana – Ah! Cecilio! Por que você tem que fazer tudo da maneira
mais difícil? Por que você não
me deixa ajuda-lo?
Cecilio – Não posso!
Eliana – Esse seu orgulho bobo ainda vai acabar prejudicando-o. Eu
sou rica, posso lhe
emprestar o dinheiro
que você quiser. Você poderia resgatar as promissórias, fazer o
filme sozinho e me
pagava quando pudesse.
Cecilio – No começo de minha carreira eu não tinha nada. Construí
tudo sem receber ajuda de
ninguém, ganhei
reconhecimento e fama. Agora, não vou permitir que um garoto
como Ícaro me
arruíne, nem que você me socorra.
Eliana – Como você é infantil!
Cecilio – Meu novo filme vai dar certo e Ícaro vai me ajudar.
Eliana – Como você pode estar certo disso?
Cecilio – Eu tenho minhas armas para força-lo.
Eliana – Às vezes, você me assusta.
Cecilio – Bobagem.
A campainha toca. Cecilio atende. Eliana senta-se em uma das extremidades
do sofá. Ícaro entra carregando uma valise.
Cecilio – Bom dia Ícaro, como você está?
Ícaro – Muito bem, obrigado.
Cecilio – Como foi a viagem?
Ícaro – Agradável. A região é muito bonita e, o que é bom, é
próxima à cidade.
Cecilio – Sim, eu não suportaria ficar distante da civilização
mais do que duas horas.
Ícaro – Eu sei. Você é um homem da cidade. Por isso mesmo fiquei
me perguntando o porquê
de você me pedir
para que visitasse a fazenda, se os temas de seus trabalhos sempre
foram urbanos.
Cecilio – É que estou mudando. Quero experimentar novos estilos.
Tenho grandes idéias. Mas
me diga, o que achou
da fazenda?
Ícaro – Linda!
Cecilio – E o casarão?
Ícaro – Fantástico. Um ótimo cenário.
Dirigem-se à frente da sala. Ícaro põe a valise junto à mesinha do
telefone e percebe Eliana.
Ícaro – Olá Eliana.
(sem se mostrar muito simpática)
Eliana – Olá!
Ícaro – Há quanto tempo não nos vemos! Como você tem passado?
Eliana – Bem, obrigada!
Cecilio – Quer se sentar?
Ícaro – Obrigado!
Ícaro senta-se na ponta livre do sofá. Cecilio senta-se entre ele e
Eliana.
Ícaro – Então, você tem muitas ideias novas?
Cecilio – Muitas, muitíssimas.
Ícaro – Que tipo de ideias?
Cecilio – Do melhor tipo.
Ícaro – Boas ideias, para mim, são as que dão dinheiro.
Cecilio – Minhas ideias são sempre boas. Porém poucas pessoas as
compreendem.
Ícaro – Sim, sei disso muito bem. É um projeto grandioso?
Cecilio – Não! Não é grande.
Ícaro – Mas... será que?
Cecilio – Pode ficar tranquilo, dessa vez ficaremos milionários.
Ícaro – Bem, então me conte.
Cecilio – Sim... claro... deixe-me ver... bem...
Ícaro – E então?
Cecilio – Assim de improviso não consigo, preciso de minhas
anotações. Elas estão no quarto,
vou busca-las.
Eliana lhe fará companhia por um minuto.
Cecilio dirige-se ao quarto. Assim que ele sai, Eliana e Ícaro se olham
e, repentinamente, abraçam-se e beijam-se.
Eliana – Você não devia ter vindo.
Ícaro – Não pude resistir. Pareceu-me tão excitante.
Eliana – É muito arriscado.
Ícaro – Eu estava tão ansioso por vê-la.
Eliana – Ele deve estar desconfiado.
Ícaro – Não, ele não tem motivos. Sempre fomos muito discretos.
Eliana – Então, por que ele o chamou?
Ícaro – Para conversarmos.
Eliana – Estou certa de que há outro motivo.
Ícaro – Não tenha medo.
Eliana – Ele sabe sobre nós, provocou essa situação e quer nos
pegar em flagrante.
Ícaro – Então, precisamos ser cautelosos. Precisamos fingir.
Eliana – Eu não consigo, fico com muito medo.
Ícaro – Mas você precisa tentar. Tenho certeza de que consegue.
Eliana – Será?
Ícaro – Claro! Estarei sempre por perto para lhe ajudar.
Eliana – Este é o problema. Você vai estar sempre por perto.
Ícaro – Mas você precisa tentar, nosso relacionamento depende
disso. Eu a amo tanto...
Eliana – Eu também o amo.
Abraçam-se novamente. Percebem que Cecilio está voltando e retornam a
seus lugares nas extremidades do sofá. Cecilio entra com alguns papéis na mão.
Cecilio – Aqui estão! Não consigo conversar sem minhas anotações.
Eliana se levanta.
Eliana – Com licença!
Cecilio a observa. Ela pega as malas que estão atrás do sofá e as leva
para o quarto.
Cecilio – Você não achou Eliana um pouco estranha?
Ícaro – Estranha? Como assim?
Cecilio – Não sei, diferente.
Ícaro – Diferente? Diferente em quê?
Cecilio – Ela lhe pareceu feliz ou infeliz?
Ícaro – Não sei. Acho que estava bem.
Cecilio – Mas ela está infeliz.
Ícaro – Por que você acha que ela está infeliz?
Cecilio – Não é que eu ache, eu sei. Ela está infeliz.
Ícaro – Tem certeza?
Cecilio – Não, mas desconfio.
Ícaro – E por quê?
Cecilio – Não sei ao certo. Gostaria de lhe contar uma coisa, mas
não sei se devo.
Ícaro – Se está em dúvida, não conte.
Cecilio – Mas eu quero.
Ícaro – Então conte.
Cecilio – Nunca falei antes para ninguém, mas não posso mais
esconder.
Ícaro – Não se preocupe, eu sei guardar segredos.
Cecilio – Eu sei, o problema não é com você, é comigo mesmo...
nosso relacionamento não vai
bem.
Ícaro – Não?
Cecilio – Não! Não estamos conseguindo nos entender mais.
Ícaro – E por quê?
Cecilio – Porque nos conhecemos bem demais.
Ícaro – Como?
Cecilio – Sempre sabemos de antemão o que um tem para dizer ao
outro. Isso acaba com
qualquer
relacionamento.
Ícaro – Mas vocês são pessoas inteligentes, vão se entender, é só
conversar.
Cecilio – Por isso viemos passar o final de semana aqui. Ambos
queremos o entendimento,
mas não há como.
Ícaro – Por que não?
Cecilio – Porque eu sou o culpado.
Ícaro – O que você fez?
Cecilio – O problema é o que eu não fiz.
Ícaro – E o que você deixou de fazer?
Cecilio – Não consigo mais demonstrar o meu amor.
Ícaro – Por quê?
Cecilio – Algo me impede.
Ícaro – O quê?
Cecilio – A desconfiança.
Ícaro – Em quê?
Cecilio – Desconfio que ela me trai.
Ícaro – Ela alguma vez falou sobre isso?
Cecilio – Claro que não, mas ainda assim desconfio.
Ícaro – Ela o tem tratado com frieza?
Cecilio – Pelo contrário, nunca foi tão carinhosa.
Ícaro – Então por que você desconfia?
Cecilio – Intuição.
Ícaro – Intuição?
Cecilio – Sim, um homem sempre sabe quando está sendo traído.
Ícaro – E o que você pretende fazer?
Cecilio – Nada.
Ícaro – Nada?
Cecilio – Nada, até descobrir quem ele é.
Ícaro – E depois?
Cecilio – Mato-o.
Ícaro leva a mão ao peito.
Ícaro – Tem alguma pista?
Cecilio – Não, mas elas não demorarão a aparecer.
Ícaro – É mesmo?
Eliana volta do quarto.
Eliana – Desculpem-me por ter saído tão de repente, mas me lembrei
que não havia desfeito
as malas. Sobre o
que vocês conversavam?
Ícaro – Nada de interessante.
Cecilio – Falávamos sobre Ícaro.
Ícaro olha-o surpreso.
Eliana – É mesmo?
Cecilio – Eu tentava fazer com que Ícaro me fizesse algumas
confissões.
Eliana – Confissões?
Cecilio – Sim. Você já reparou que Ícaro nunca fala sobre seus
relacionamentos amorosos?
Eliana – E teve algum sucesso?
Cecilio – Nenhum, ele se recusou a dizer qualquer palavra.
Eliana – Ícaro, é verdade?
Ícaro – Se vocês não se importam eu gostaria de falar sobre outra
coisa.
Ícaro se levanta e vai até a janela.
Cecilio – Em minha opinião, os assuntos mais interessantes são
aqueles que as pessoas mais
evitam. Não há nada
mais estimulante do que os segredos alheios. Às vezes, acho até
que não deveriam ser
revelados. O que seria da imaginação se não fossem os
segredos?
Ícaro – O que você quer dizer com isso?
Cecilio – Não sou eu quem diz, trata-se de um fato. A partir do
momento em que um segredo
existe, é desnecessário desvenda-lo para se chegar ao
final da história. A imaginação se
encarrega de termina-la. Um único segredo pode dar
origem a dezenas de histórias.
Sobre Ícaro há várias.
Eliana – É mesmo?
Cecilio – Sim. Você não imagina o quanto Ícaro é estimulante.
Afinal, um jovem rico,
inteligente e
solteiro é uma provocação à imaginação de qualquer um. Mas eu sei de
uma coisa sobre
Ícaro que ele não sabe que eu sei.
Eliana – E o que é?
Cecilio – Ele tem uma namorada.
Eliana – Tem?
Cecilio – Sim. E se a esconde é porque deve haver um bom motivo
para isso.
Eliana – Que motivo?
Cecilio – Isso eu não sei, mas não é difícil imaginar. Por
exemplo...
Eliana – Por exemplo?
Cecilio – Ela deve ser casada.
Eliana – Que bobagem! Você está permitindo que sua imaginação vá
longe demais. Por que
não falamos sobre outra
coisa? Você está aborrecendo a Ícaro.
Cecilio – Desculpem-me, você tem razão.
Eliana – Vocês já conversaram sobre o novo projeto?
Ícaro – Ainda não.
Cecilio – Boa ideia, vamos falar sobre isso. Venham se sentar.
Voltam aos mesmos lugares no sofá. Cecilio entrega os manuscritos a
Ícaro.
Cecilio – Enquanto falamos, gostaria que você experimentasse algo
especial Ícaro.
Dirige-se ao bar.
Cecilio – Tenho aqui um ótimo vinho branco. É francês, safra 1941,
você gostaria?
Ícaro – Sim, por favor.
Cecilio serve um copo, entrega a Ícaro e guarda a garrafa. Depois serve
pequenos cálices de conhaque para si e para Eliana. Enquanto isso vai falando.
Cecilio – Esse vai ser um filme diferente. Evitarei os excessos.
Nada de citações eruditas, nem
denúncias políticas.
Não falarei de guerras, crimes ou escândalos. Quero um filme
acessível, que seja
uma diversão. Porém uma diversão inteligente. É preciso que haja
arte e sutileza em
cada detalhe. A beleza é fundamental. Nada, sendo belo, será
totalmente vazio. O
verdadeiro artista trabalha com o belo, manipula a emoção, e para
isso é necessário
ser virtuoso. Quero superar tudo o que já foi feito. Quero que todas
as pessoas que
vierem a assistir a esse filme tornem-se prisioneiras das lembranças
que ele lhes trará.
Quero-as todas cúmplices. Quero um filme onde ninguém consiga
sair do cinema antes
do último minuto. Mas como conseguir isso?
Eliana – Não sei, como?
Cecilio – Usando a receita certa.
Eliana – E qual é a receita certa?
Cecilio – Suspense até o fim e um bom crime!
Eliana – Um crime?
Cecilio – Em minha opinião, até mesmo um crime pode ser um ato
elegante, feito com arte e
sutileza. É claro
que isso depende muito do criminoso. Veja só Ícaro, Eliana possui uma
pequena pistola com
cabo de madrepérola incrustado de diamantes.
Eliana – Sim, ganhei de minha avó, uma senhora muito fina.
Cecilio – Para Eliana não há nada mais chique do que matar alguém
com essa arma.
Eliana – Cecilio, isso não é verdade.
Cecilio – Eu porém tenho horror a sangue. Em minha opinião não há
nada pior do que marcas.
Por isso mesmo não
gosto do passado. O crime ideal não deixa marcas.
Eliana – Dê um exemplo.
Cecilio – Um bom veneno. Tão sutil, tão suave que sua composição
se confundiria com a do
meio em que seria
diluído, de forma que nem mesmo os maiores peritos seriam
capazes de
percebe-lo.
Eliana, um pouco influenciada, olha para o cálice que segura e com uma
repugnância mal disfarçada coloca-o sobre a mesa.
Eliana – E... esse veneno existe?
Cecilio – Estou convencido de que sim. Outra boa opção é a
asfixia, naturalmente feita com
uma almofada. Nada de
cordas ou dedos no pescoço.
Eliana – Que horror! Como você pode falar coisas assim?
Eliana lembra-se do vinho branco que Ícaro está bebendo e, a partir deste
momento, até que isso seja conveniente, ela olhará para o copo de maneira
obsessiva.
Cecilio – Ícaro, você também acha terríveis as coisas que falo?
Ícaro – Minhas opiniões a respeito de suas opiniões não vêm ao
caso. Agora, o que importa é
falar do filme como
um empreendimento.
Cecilio – É por isso que eu gosto de Ícaro, ele é prático e
objetivo. Ou seja, exatamente o que
eu não sou.
Ícaro – Não se faz um filme apenas com boas ideias. São
necessários muito trabalho e
dedicação.
Cecilio – Eu sei, por isso chamei você.
Ícaro – É preciso também estudar as viabilidades financeiras e as
possibilidades de lucros que o
projeto oferece.
Cecilio – Sei disso também. É como um jogo. Alguns sobem e outros
descem.
Ícaro – Por isso é preciso pensar muito bem antes de começar. O
passado pode nos mostrar
claramente que...
Cecilio – Você acha necessário relembrar o passado?
Ícaro – Você acha que não? O que estamos vivendo agora é a
consequência dele e o que talvez
venhamos a fazer no
futuro também será.
Cecilio – Certo. Eu acabo tendo que admitir que você tem sempre
razão.
Ícaro – As consequências de “Páginas arrancadas” foram desastrosas
para nós dois. Há três
anos que você não
produz nada.
Cecilio – Mas você produziu. Durantes esses três anos você se
associou a outros produtores e
esteve sempre com
algum trabalho em andamento.
Ícaro – Sim e todos deram lucro. Mas por quê? Porque antes de
começar eu os estudava muito
bem.
Cecilio – O mesmo aconteceu com “Páginas arrancadas”. Você estudou
muito bem a situação
antes de se
resolver.
Ícaro – É verdade, e depois dei todo o apoio que você precisou.
Cecilio – Sou grato por isso.
Ícaro – Mas “Páginas arrancadas” foi um fracasso.
Cecilio – Sim... comercialmente falando foi mesmo.
Ícaro – E por causa disso você não pôde trabalhar por três anos. A
produtora da qual somos
sócios em partes
iguais, cinquenta por cento cada um, esteve parada. Os estúdios
foram fechados, os
funcionários mandados embora. Mantivemos apenas um pequeno
escritório
funcionando para tratar de acertos e débitos. E você ainda me deve dinheiro,
lembre-se de que as
promissórias vencerão no fim do ano.
Ícaro leva a mão à testa como se estivesse atordoado.
Cecilio – Acredito que tudo poderá ser recuperado com este novo
filme.
Ícaro – Sua ideia parece boa e pode dar certo. Mas o que quero
saber é o que você tem para
oferecer. Qual seria
sua parte nesse novo empreendimento?
Cecilio – Pretendo entrar principalmente com a ideia e meu
trabalho, mas há outras coisas que
precisamos acertar.
Ícaro – E o que é?
Cecilio – Em primeiro lugar, acho que poderíamos reativar o
estúdio. Para quê todo aquele
equipamento parado?
No início, quando você se opôs a que vendêssemos, eu não
compreendi o porquê,
mas agora entendo. O estúdio é tudo quanto temos.
Ícaro – Pois agora acho que devemos vende-lo.
Eliana – Ícaro.
Cecilio – Como? Não compreendo.
Ícaro – Veja bem, as máquinas são velhas, estão ultrapassadas. Não
tenho a menor intenção
de deixar o que
estou fazendo para voltar a trabalhar lá. Seria um passo atrás.
Cecilio começa a ficar nervoso.
Cecilio – Espere, deixe-me ver se estou compreendendo. Há três
anos, quando eu me
encontrava numa
séria crise financeira e propus que vendêssemos o estúdio, você foi
contra. Agora,
quando quero reaproveita-lo, você acha melhor vender?
Durante a conversa, Ícaro se sente atordoado, mantém a cabeça baixa.
Ícaro – Por favor, não tire conclusões precipitadas.
Absolutamente, não gostaria que você
pensasse que tenho
algum interesse em prejudica-lo.
Cecilio – Espero sinceramente que não. Estou realmente contando com
a possibilidade de
retomarmos nossa
sociedade.
Ícaro – Sei.
Cecilio – Há ainda outro assunto sobre o qual quero conversar.
Ícaro – Qual assunto?
Cecilio – São as promissórias. Preciso de um prazo maior para
paga-las.
Ícaro – Qual é o prazo que você precisa?
Cecilio – O tempo suficiente para realizar o filme e
comercializa-lo.
Ícaro – Ou seja, você quer que eu financie seu filme. Depois,
quando ele fizer sucesso e você
ganhar bastante
dinheiro, você paga o que me deve.
Cecilio – Falando nesses termos sei que parece estranho, mas no
fim é isso mesmo.
Ícaro – Nesse caso, então temos um problema.
Cecilio – Qual?
Enquanto fala, Ícaro vai demonstrando progressivamente que está pior.
Ícaro – Você precisa compreender que três anos é muito tempo. Não
se pode, depois disso,
querer continuar de
onde se parou. Atualmente, tenho outros compromissos e outros
interesses.
Inclusive, é bom que estejamos falando nisso agora, gostaria que
deixássemos algumas
coisas bem resolvidas.
Cecilio – O quê?
Ícaro – Em primeiro lugar, não quero retomar a sociedade.
Eliana – Ah, não!
Ícaro – Além disso, eu quero realmente vender o estúdio e tem
mais.
Cecilio – O que mais?
Ícaro – Não vou aumentar o prazo das promissórias.
Cecilio – Seu cafajeste, ladrão, trapaceiro!
Eliana – Cecilio, por favor fique calmo.
Cecilio – Como pude me enganar com você? Agora vejo que o tempo
todo você fingiu ser meu
amigo.
Ícaro – Não é nada disso. Acontece apenas que para certas coisas
você é muito simplório, não
sabe fazer negócios.
Cecilio – E você sabe! Ah! E como sabe! Como ele é esperto. Só que
é desonesto também. É
capaz das coisas
mais sujas para atingir seus objetivos.
Ícaro – Desista Cecilio, você está arruinado.
Ao ouvir isso, Cecilio dá grandes gargalhadas. Eliana observa-o sem
compreender. Ícaro está cada vez pior.
Cecilio – Ah! Ah! Ah! Ah! Então é
isso que você queria? Me arruinar? Meu caro o ingênuo aqui
é você.
Ícaro – Como assim?
Cecilio – Eu já sabia que você não iria aceitar minha proposta.
Ícaro – Sabia?
Cecilio – Sim, e também que você não iria me dar um prazo maior
para as promissórias.
Ícaro – Mas então?
Cecilio – Então, você quer saber o que pretendo não é mesmo? Você
quer saber por que eu o
chamei aqui?
Ícaro – Ai, minha cabeça!
Cecilio – Foi para dizer que não preciso de nenhuma sociedade com
você. Não preciso das
promissórias.
Ícaro – Não estou me sentindo bem.
Cecilio – Não? Mas como? Você sempre esteve bem. Você sempre foi o
mais bonito, o mais
esperto. Sempre foi
superior. E eu? Pobre de mim! Mas agora você está acabado. Esse
é o seu fim.
Realmente você não está bem, mas ainda vai piorar.
Ícaro – Minha cabeça dói.
Cecilio – Este é um dos efeitos do veneno.
Eliana – Cecilio, o que você está dizendo?
Cecilio – Você foi envenenado com um veneno tão sutil que nem
mesmo os maiores peritos
conseguirão
identifica-lo.
Eliana – Meu Deus!
Cecilio – Espero que, pelo menos, tenha apreciado o vinho. Sabe o
que irá acontecer depois
que você morrer? Seu
irmão será seu herdeiro. Minha filha é casada com ele em
comunhão de bens.
Assim sendo, eu terei o estúdio de volta.
Ícaro – Seu... eu vou...
Completamente atordoado Ícaro se levanta, pega a valise ao lado da mesa
do telefone, e tenta se dirigir à porta. Dá apenas dois passos e cai. Eliana dá
um grito e, apavorada, se afasta até se encostar à parede da direita junto à
escrivaninha. Cecilio se aproxima de Ícaro e mexe nele com o pé.
Cecilio – Puxa! Foi mais rápido do que eu imaginava! Pobre Ícaro!
Trabalhou tanto e acabou
assim, traído pelo
melhor amigo. Mas também, não se pode querer levar vantagem em
tudo, não é mesmo?
Percebe a valise na mão de Ícaro e pega-a, senta-se no sofá, abre a
valise e retira algumas folhas.
Cecilio – As promissórias! Eu sabia que você iria trazê-las. Acho
que no fim eu o conhecia
melhor do que você
imaginava. Eu tinha certeza de que você não iria resistir à
tentação de
traze-las tão perto de mim, só para depois leva-las de volta.
Depois de folhear os papéis, levanta-se e os guarda na gaveta da
escrivaninha junto à qual Eliana está encostada. Nesse momento Cecilio a
percebe.
Cecilio – Eliana, querida...
Eliana – Você... você é um assassino...
Cecilio – Fique calma! Procure compreender. Eu não poderia lhe
contar nada. Você poderia
atrapalhar, fazer
alguma coisa errada. Você é tão nervosa!
Eliana – Por quê? Por que fez isso?
Cecilio – Ele não me deixou escolha. Ele me sufocava. Ele impedia
que eu realizasse qualquer
coisa. Eu estava
amarrado a ele. Você viu. Quando eu queria vender o estúdio, ele não
queria. Quando eu
não queria, ele resolvia vendar. Ele não ia me deixar livre nunca. Só
assim. Foi o único
jeito.
Eliana – Precisamos ir embora! Precisamos fugir!
Cecilio – Não! Não! Fique calma! Eu pensei em tudo. Não há perigo.
Está tudo sob controle.
Eliana – Como não há perigo? Não está vendo o que você fez? Você
sabe o que é isso? Isso é
crime, assassinato!
Cecilio – Eu lhe explico, venha, sente-se.
Faz com que ela se sente. Eliana não consegue tirar os olhos de Ícaro e
chora o tempo todo.
Cecilio – Liguei para ele ontem à tarde sugerindo que viesse
conhecer a fazenda e ele
concordou.
Conhecendo Ícaro como eu conhecia, posso lhe garantir que ele deixou sua
secretária avisada
de que no dia seguinte iria viajar, informou-lhe o local e o horário
em que estaria, ou
seja, ele deixou um jeito de ser encontrado no caso de alguma
eventualidade. Ele
era muito organizado. Hoje ele acordou bem cedo e saiu. Não teve
tempo para falar com
ninguém. Você sabe que ele morava sozinho. Uma coisa porém
ele não esperava,
que eu ligasse para a fazenda e o convidasse a vir para cá. Embora
isso não estivesse
em seus planos originais ele concordou. Quando liguei para a
fazenda, não disse
meu nome. O velho que cuida do casarão é atrapalhado. Ícaro deve
ter falado muito
pouco enquanto esteve lá. Ninguém sabe que depois de ter estado na
fazenda ele veio
para cá.
Eliana – Mas e agora, o que vamos fazer?
Cecilio – É simples. Vou coloca-lo em seu carro. De madrugada,
levo-o até a estrada para a
cidade e empurro-o
em algum despenhadeiro. Todos irão pensar que ele sofreu um
acidente quando
estava voltando para casa.
Eliana – Não vai dar certo. Eu tenho certeza de que não vai. Você
deve ter se esquecido de
algum detalhe.
Cecilio – Não, eu não me esqueci. Desta vez pensei em tudo. Confie
em mim.
Eliana – Você se esqueceu de mim.
Cecilio – Não esqueci não. Tenho certeza de que fará tudo aquilo
que espero.
Eliana – Estou nervosa. Estou com medo. Estou com dor de cabeça.
Cecilio – Por que você não se deita? Enquanto isso eu vou cuidando
de todos os detalhes.
Cecilio se abaixa, pega Ícaro pelos braços e começa a arrastá-lo em
direção à porta.
Cecilio – Puxa! Como pesa! Eu sempre disse a Ícaro que ele
precisava fazer um regime, mas era
orgulhoso demais
para admitir. Agora fica me dando mais esse trabalho.
Dirige-se à porta de saída.
Cecilio – Eliana, você poderia abrir a porta, por favor?
Eliana atende.
Cecilio – Vá se deitar. Você vai ver como amanhã tudo terá
passado.
Cecilio sai. Eliana fecha a porta. Em seu rosto há uma grande expressão
de pavor.
A luz se apaga.
Fim do primeiro ato
...
ATO 2
Luzes apagadas. Ouvem-se trovoadas. Pela vidraça aberta vêem-se
relâmpagos. Depois de alguns minutos, a luz se acende. Eliana entra, usando um
penhoir. Anda pela sala como se estivesse muito nervosa. Dirige-se ao bar. Pega
um copo e, na hora em que pega uma garrafa, parece se lembrar de algo e
desiste. Cecilio, de pijama, aparece.
Cecilio – Eliana, você está bem?
Eliana – Estou!
Cecilio – Está sentindo alguma coisa?
Eliana – Não... quero dizer, estou. Estou sentindo um monte de
coisas. Medo, pavor, sono, cócegas, frio, fome, estou nervosa! Estou com
vontade de chorar!
Cecilio – Não fique assim. Eu já lhe expliquei que está tudo bem e
que não é preciso ter medo.
Eliana – Explicou! Eu sei que explicou, mas isso não adianta! Não
consigo deixar de sentir o que
sinto. Eu prefiro
ter medo! Medo! Prefiro ter muito medo do que ficar assim como
você! Como se nada
estivesse acontecendo! Ai, eu preciso de um calmante! Eu preciso
de um calmante!
Cecilio a abraça.
Cecilio – Procure se controlar. O médico disse que você não pode
ficar nervosa. Procure pensar
que está tudo bem.
Você está proibida de tomar calmantes, lembra-se? Você estava
ficando dependente e
não trouxemos nenhum.
Eliana – Então me abrace por favor.
Abraçam-se. Ela soluça.
Eliana – Eu preciso lhe falar uma coisa.
Cecilio – Claro! Claro! Fale, diga tudo o que quiser.
Eliana – É sobre Ícaro.
Cecilio – Não! Não diga nada sobre ele, seria pior.
Eliana – Mas eu preciso. Você precisa saber.
Cecilio – Não! Não! Não quero saber de nada. Ícaro agora pertence
ao passado. Para mim
morreu!
Eliana – É sobre mim também.
Cecilio – Sobre você também?
Eliana – Sim.
Cecilio – Você e Ícaro?
Eliana – Sim.
Cecilio – Não é preciso dizer nada. Eu já sei de tudo.
Eliana – Sabe?
Cecilio – Sim. Sei que você está se sentindo culpada porque o
detestava. Isso é natural. Ter
sentimentos de culpa
é comum quando algo de ruim acontece a quem a gente não
gosta. Mas nem por
isso o que você está sentindo é verdade. Você precisa esquecer. O
que aconteceu não
tem nada a ver com você. Eu sou o único responsável.
Ao ouvir isso, Eliana se sente derrotada, apoia a cabeça em Cecilio e
chora.
Cecilio – Isso mesmo, desabafe. Procure esquecer.
De repente a luz se apaga. Ao mesmo tempo, os trovões e relâmpagos se
acentuam, dando à sala uma aparência estranha e assustadora.
Eliana – O que aconteceu?
Cecilio – Não sei. É essa chuva. A tempestade deve ter derrubado
alguma árvore e ela
arrebentou os fios. Só
pode ter ser isso. É estranho, parece que o gerador não
funcionou.
Eliana – E agora, o que vamos fazer?
Cecilio – Há duas alternativas. Podemos esperar até amanhã para
ver o que aconteceu...
Eliana – Até amanhã? Eu não sobreviveria.
Cecilio – Então vou ver o que aconteceu.
Dirige-se ao quarto.
Eliana – Vai sair?
Cecilio – Vou!
Eliana – Nessa chuva?
Cecilio – Vestirei uma capa.
Eliana – E eu? Vou ficar aqui sozinha?
Cecilio – Não se preocupe. Não há nada que possa acontecer.
Eliana – Não?
Cecilio – Não!
Eliana – Bem... eu posso morrer!
Cecilio – Não diga isso.
Eliana – Acho que vou morrer!
Cecilio volta. Já não está de pijama. Por cima da roupa veste uma capa de
chuva. Eliana se assusta com sua aproximação.
Cecilio – Está tudo bem.
Eliana – Não está não! Para mim, tudo está ficando cada vez pior.
Cecilio – É só uma chuva.
Eliana – Não é só uma chuva! É uma tempestade! Uma tempestade
enorme e terrível! É um
castigo dos céus!
Vai haver uma inundação e nós seremos punidos. É isso o que vai
acontecer.
Cecilio – Você está se deixando levar por sua imaginação. Está
perdendo o controle.
Eliana – Eu sempre me deixo levar pela minha imaginação. Sou
fraca. Não sou como você!
Cecilio – É sim. Você é forte. Eu a estou ensinando a ser forte.
Vamos nos sair muito bem.
Eliana – Não tenha tanta certeza. Eu perco o controle facilmente.
Posso fazer uma besteira e
pôr tudo a perder.
Cecilio – Não vai fazer nada disso. Você vai fazer exatamente
aquilo que espero que você faça.
Você vai me ajudar.
Eliana – Fazer o quê? Do que você está falando?
Cecilio – Você vai me ajudar. Vai ficar tranquila e me esperar. Eu
vou ver o que aconteceu e já
volto.
Dirige-se à porta.
Eliana – Se você demorar mais do que dez minutos eu telefone para
a polícia.
Cecilio volta e examina o telefone.
Cecilio – O telefone também não está funcionando. Vou ter que ver
isso também. Volto logo.
Sai. Eliana fica soluçando. Em meio à penumbra e iluminada pelos
relâmpagos, ela caminha pela sala. Num dado momento, como se pressentisse algo,
dirige-se lentamente à janela. Quando está bem próxima, repentinamente surge um
vulto, cujo perfil pode ser visto através da vidraça. Eliana dá um grito
histérico e foge na direção da boca de cena. Um instante depois, a porta é
arrombada e Ícaro, todo molhado, entra (é importante que logo após sua entrada
Ícaro feche a porta, é provável que essa ação pareça inverossímil, mas tem como
função impedir a fuga de Eliana). Ao percebê-la, caminha em sua direção. Começa
uma perseguição feita lenta e controladamente. Eliana, terrivelmente assustada,
não consegue desviar os olhos dele, caminha dando passos para trás. Ícaro, como
se estivesse possuído por uma grande sede de vingança, avança passo a passo.
Desta forma, dão uma volta pela sala até que Eliana acaba ao lado do sofá,
tendo-o atrás de seus joelhos. Conforme Ícaro se aproxima, ela cai deitada no
sofá. Ele avança para cima dela e, pressionando uma almofada contra seu rosto,
mata-a asfixiada. Ícaro se levanta ofegante no mesmo momento em que a luz da
sala é acesa. Em seguida, Cecilio entra olhando cautelosamente.
Cecilio – Pronto?
Ícaro – Pronto! Está tudo acabado.
Cecilio se aproxima retirando a capa de chuva. Pára atrás do sofá e
observa Eliana.
Cecilio – Pobre Eliana! A verdade é que ela merecia um fim bem
mais feliz. Acho que vou sentir
saudades. Afinal,
foram tantos anos juntos. Querida, quero que você saiba que a amei
sinceramente, pelo
menos no começo. Está certo que ultimamente as coisas andavam
um pouco difíceis
entre nós, mas era recíproco. Você também estava cansada de mim.
Este foi o jeito que
encontrei para livrá-la do martírio de ter que conviver comigo. Mas
devo confessar que a
admirava. Apesar de não saber controlar os próprios nervos, o
que aliás vinha
piorando ultimamente, você conseguiu vencer na vida. Coisa que eu
nunca consegui, mas
que com sua ajuda, agora terei chance de conseguir. Agora
estarei livre para
dirigir minha vida como bem entender. Este era um de seus defeitos,
você interferia
demais. Gostava de dirigir. Assim como dirigia suas empresas, queria
dirigir as pessoas.
E você nunca compreendeu que, para um artista, isso é insuportável.
Abaixa-se, retira a almofada de seu rosto e beija-a carinhosamente.
Cecilio – Obrigado. Você se comportou muito bem. Ajudou-me até o
fim. Fez exatamente
aquilo que eu
esperava. Você foi sensacional.
Dirige-se a Ícaro.
Cecilio – E você meu amigo, não sei como agradecer. Eu jamais
teria coragem de fazê-lo.
Apesar de tudo,
tenho um enorme pudor a certos atos, mesmo feitos com a devida
sutileza.
Ícaro – Não foi difícil.
Cecilio – Sinto muito tê-lo feito passar por tudo isso.
Ícaro – Não tem problema. Tenho certeza de que valerá a pena.
Principalmente considerando
que iremos retomar
nossa sociedade e que você é o único herdeiro de Eliana...
Cecilio – Quer falar de negócios agora?
Ícaro – Vê algum inconveniente?
Cecilio – Detestaria começar a fazer uso da fortuna de Eliana dois
minutos depois de sua
morte.
Ícaro – Compreendo.
Cecilio – Pelo menos não em sua frente. Você poderia me ajudar a
leva-la para o quarto?
Ícaro – Claro!
Ícaro ajuda Cecilio a segurar Eliana nos braços.
Cecilio – Como pesa! Sempre disse a Eliana que ela precisava fazer
um regime, mas era vaidosa
demais para admitir.
Só espero que todo esse trabalho valha a pena realmente.
Leva-a ao quarto e volta.
Cecilio – Amanhã de manhã chamarei a polícia. Direi que, ao
acordar, encontrei-a morta. Creio
que não será difícil
convencê-los de que ela teve uma parada respiratória durante o
sono. Principalmente se eu disser que ela era dependente
de calmantes e que não
trouxe nenhum para o fim de semana.
Ícaro – Sim, creio que não será difícil convencê-los.
Cecilio – Além disso, ela bebeu antes de se deitar.
Ícaro – Ela não devia ter feito isso.
Cecilio – Mas era teimosa demais para ouvir qualquer conselho e a
tempestade deixou-a
histérica.
Ícaro – É mesmo! Ela devia ter tomado mais cuidado. Mas agora
podemos falar de negócios?
Cecilio – Você está todo molhado. Não pode ficar assim. Precisa
trocar de roupa.
Ícaro – Estou bem assim, quero falar sobre os projetos. Não precisa
se incomodar.
Cecilio se aproxima de Ícaro e com delicadeza começa a desabotoar sua
camisa. Ícaro oferece os punhos para que também os desabotoe.
Cecilio – Como não? Afinal, justamente agora que estou livre para
dirigir minha vida como bem
entender, não posso
permitir que você pegue um resfriado. Conto com sua
participação em
muitos dos meus projetos. Vou pegar uma camisa seca e volto num
minuto.
Sai. Ícaro, demonstrando grande satisfação, senta-se no sofá. Estica as
pernas e levanta os braços, espreguiçando-se. Cecilio volta com a camisa,
deixa-a no encosto do sofá, apoia as mãos nos ombros de Ícaro e faz-lhe
carinho.
Cecilio – Agora sim! Agora todos os meus sonhos irão se realizar.
As empresas de Eliana me
darão rendimento
suficiente para fazer todos os filmes que desejar. Podemos
retomar nossa
sociedade e desta vez não serei tão passivo. Minha participação será
muito mais concreta
e atuante do que simplesmente chegar com um punhado de
ideias.
Ícaro – Fico feliz por vê-lo tão otimista. Fico feliz em saber que
sua participação em nossa
sociedade será mais
ativa do que antes. Mas não quero que menospreze suas ideias.
São elas que vão dar
o caráter poético àquilo que iremos fazer.
Cecilio – Eu sei. Além de crimes e traições, há outro ingrediente
que acho fundamental para
dar qualidade a uma
historia.
Ícaro – E o que é?
Cecilio – O amor, a sensualidade, o erotismo. Naturalmente,
tocados só de leve, com a mesma
classe e sutileza
que todo o resto.
Ícaro – Ótimo! Agora vamos falar de nossos projetos.
Ícaro retira as mãos de Cecilio de seus ombros, pega a camisa e veste-a.
Cecilio – Está bem. Se você acha isso suficientemente
interessante, vamos conversar.
Ícaro – Você gostaria de retomar nossa sociedade nos mesmos termos
de antigamente?
Cecilio – Claro que não! Gostaria de tirar aquela cláusula onde
assumo todas as despesas no
caso de fracasso.
Ícaro – Claro! Eu ia sugerir exatamente isso. Aquilo é coisa do
passado, foi necessário apenas
naquela ocasião. Mas
eu digo, seremos sócios em partes iguais? Cinquenta por cento
cada um, em despesas
e lucros?
Cecilio – Sim, participação igual em despesas e lucros.
Ícaro passa o braço pelo ombro de Cecilio e o faz sentar-se a seu lado no
sofá. Conversam de forma provocadora.
Ícaro – Ótimo, vejo que agora iremos nos entender perfeitamente.
Cecilio – É o que mais desejo.
Ícaro – Poderemos reativar o estúdio.
Cecilio – Não! Acho melhor vender.
Ícaro – Vender?
Cecilio – Sim, você não disse que o equipamento está ultrapassado?
Agora que tenho dinheiro
poderemos comprar
tudo novo.
Ícaro – Está bem. Faremos tudo conforme a sua vontade.
Cecilio – Que bom. Estou prevendo que tudo vai dar certo entre
nós.
Ícaro – Eu também. Há somente um pequeno detalhe burocrático que é
necessário acertar.
Cecilio – Do que se trata?
Ícaro – Havíamos solicitado a declaração de falência de nossa
antiga firma. Durante esses três
anos nosso advogado
esteve trabalhando nisso.
Cecilio – É mesmo? Como nunca soube disso?
Ícaro – Não soube porque você nunca se envolveu com a parte
administrativa.
Cecilio – É verdade. Você sempre se encarregou de tudo.
Ícaro – Mesmo depois de falidos, continuo administrando nossa
sociedade.
Cecilio – Espero que isto não precise mudar.
Ícaro – Não será necessário. É por isso que formamos um par
perfeito. Você atua nas áreas em
que não sou capaz e
eu naquelas em você tem dificuldades.
Cecilio – É verdade. Eu diria até que nascemos um para o outro.
Ícaro – Acho que não devemos perder tempo e partir para a ação o
mais rápido possível.
Cecilio – Eu também. Mas saber que ainda não resolvemos o problema
da falência me fez
perder o estímulo.
Isso não irá nos atrapalhar?
Ícaro – Não! Nada nos impede de começar tudo de novo. Podemos
abrir uma nova firma e,
inclusive, leiloar
nossos equipamentos velhos. Se percebermos que há alguma coisa
que ainda nos
interesse, podemos arrematar nós mesmos. Vendemos de uma firma
para outra.
Cecilio – Parece-me que está muito bem. Por mim começaríamos agora
mesmo.
Ícaro se volta e pega a valise ao lado da mesa do telefone.
Ícaro – Pois podemos começar. Redigi um contrato novo nos termos
que acabamos de
determinar, participação
igual nas despesas e nos lucros.
Cecilio – Redigiu? Mas como?
Ícaro – Claro! Não gosto de perder tempo. Como já sabia porquê
estava vindo, ontem, antes
do fim do
expediente, pedi à minha secretária que datilografasse um contrato novo e o
trouxe.
Estende algumas folhas a Cecilio que as examina um pouco confuso.
Ícaro – Não é necessário ficar preocupado só porque sou prevenido.
Observe atentamente e
verá que todas as
cláusulas são justas. Escritas com o mais rigoroso senso de
honestidade. E a
participação em partes iguais está devidamente explicada aqui nessas
linhas.
Aponta algumas linhas. Cecilio olha para tudo, mas não consegue ler nada.
Cecilio – É... parece que está tudo certo.
Ícaro – Pode acreditar que sim.
Ícaro estende-lhe uma caneta. Cecilio hesita por um instante, depois
sorridente assina e entrega as folhas a Ícaro que as guarda.
Ícaro – Agora podemos discutir o roteiro.
Cecilio – Sim, estou ansioso para isso.
Ícaro – Embora você tenha sido sempre a cabeça criadora da equipe,
espero que não se
oponha a que eu faça
algumas interferências. Considerando-se que nossas
participações são em
partes iguais, acho que tenho o direito de ter voz ativa também
na criação.
Cecilio – Nunca soube que você se interessasse por essa parte.
Ícaro – Naturalmente, eu também tenho ideias e desejo vê-las
realizadas.
Cecilio – Embora concorde que você tenha o direito de realizar
suas ideias, devo dizer que não
gosto de
interferências em minhas criações. É claro que procuro estar aberto a críticas.
Mas compreenda que o
que me faz ter dificuldades em aceitar a participação de outras
pessoas em meu
trabalho é algo intrínseco à minha personalidade.
Ícaro – De fato, você é uma pessoa que pensa sempre obras
completas. É difícil alguém
contribuir com
alguma ideia nova sem interferir no resultado final.
Cecilio – Exatamente. Você compreendeu muito bem.
Ícaro se levanta.
Ícaro – Mas eu creio que você terá que fazer sacrifícios.
Cecilio – Tudo bem, contanto que os sacrifícios sejam feitos em
partes iguais.
Ícaro – Em primeiro lugar eu não colocaria o crime.
Cecilio – Como? Mas o crime é o elemento principal, desencadeador
de toda a trama.
Ícaro – Pode ser, mas não gosto de histórias de tema policial. Não
me agradam histórias que
funcionam como um
jogo de quebra-cabeça. São muito fáceis.
Cecilio – E o que mais?
Ícaro – Geralmente são construídas sobre ideias esteticamente
pobres. Qualquer um, com um
pouco de tempo e
dedicação é capaz de fazer e desfazer uma história dessas.
Cecilio – Não admitirei interferências desse gênero!
Ícaro – Não aceitarei uma sociedade na qual eu não possa fazer
interferências desse gênero!
Cecilio – Ótimo! Muito melhor! Não há mais sociedade!
Ícaro – Impossível, você acaba de assinar um contrato.
Cecilio – Dane-se o contrato! Não sou obrigado a aceitar suas
imposições.
Ícaro – Há nesse contrato uma cláusula muito importante que você
deveria ter lido.
Cecilio – E daí?
Ícaro – Essa cláusula diz que se você se recusar a fazer uma nova
sociedade comigo, nos
termos que eu
determinar, poderei mandar as promissórias para o protesto
imediatamente, sem
ter que esperar até o fim do ano. Se você não aceitar minhas
exigências, pretendo
protestá-las na próxima segunda-feira, antes que você tenha
acesso à fortuna de
Eliana. Você aceita ou paga, ou então vai preso.
Cecilio vai à escrivaninha e pega as promissórias que estavam ali.
Cecilio – Quero ver você protestá-las.
Rasga-as.
Ícaro – O que significa isso?
Cecilio – Significa que as promissórias não existem mais. Acabei
de rasga-las.
Ícaro – Essas não eram as promissórias. Eram apenas cópias, os
originais estão no cofre em
meu escritório.
Ícaro dirige-se à mesa do telefone e pega sua valise.
Cecilio – Aonde você vai?
Ícaro – Embora!
Cecilio precipita-se em sua direção.
Cecilio – Ah não vai não! Não pense que vai sair assim, numa boa.
Cecilio agarra-o pela gola e puxa-o para trás do sofá. Cecilio derruba-o,
comprimindo suas costas contra o encosto do sofá, de forma que sua cabeça fique
projetada na direção da boca de cena (nessa posição, dobrando o pescoço para
trás, Ícaro poderá ver a plateia de cabeça para baixo).
Cecilio – Vou fazer com você aquilo que teria feito com as
promissórias se elas estivessem
aqui.
Nesse momento, ouve-se a voz de Eliana.
Eliana – Largue-o!
Cecilio pára e volta-se. Eliana está na porta do quarto apontando uma
arma para ele. Ícaro se afasta.
Eliana – Ora essa! Pensei que você preferisse os meios mais sutís
e tivesse horror a certos atos
violentos.
Cecilio – Eliana... mas eu pensei que...
Eliana – Enganou-se. Eu e Ícaro adivinhamos exatamente quais eram
suas intenções e
combinamos tudo. Ele
fingiu que me sufocava com a almofada e eu fingi que morria.
Você se deixa
enganar com muita facilidade. Nos negócios, na vida, nas brigas... Você é
um grande diretor
Cecilio, mas é ingênuo. Foi um grande prazer tê-lo conhecido.
Cecilio – Você não teria coragem.
Eliana – Por que não? Afinal, além dessa pistola com cabo de
madrepérola incrustado de
diamantes, eu herdei
de minha avó, aquela senhora fina e elegante, um bocado de
coragem. Adeus!
Eliana atira. Cecilio cai atrás do sofá. Eliana joga a arma para o lado e
vai sentar-se.
Eliana – Ah! Finalmente estou livre! Não o suportava mais. Ícaro,
você não imagina o que era
viver com esse
homem!
Ícaro – Também me sinto aliviado!
Eliana – Ele só queria o meu dinheiro, o único objetivo da vida
dele era me explorar!
Ícaro – Eu sei, ambos estamos livres. Cecilio também estava se
tornando um problema em
minha vida. Eu já
não conseguia mais trabalhar com tantas sociedades que ele me
propunha.
Eliana – E agora, o que faremos?
Ícaro – Podemos fazer tudo o que quisermos. E o que é mais
importante, temos um ao outro.
Eliana – Quero viajar! Esquecer tudo isso.
Ícaro – E eu quero fazer meus próprios filmes.
Eliana – Ótimo! Irei ajuda-lo no que precisar.
Ícaro – Meu primeiro filme será baseado no roteiro de Cecilio.
Onde ele o deixou? Você o viu?
Eliana – Não, mas acho que estava por aqui...
Procura e encontra o roteiro.
Ícaro – Ele era um grande diretor e um excelente roteirista, mas
criava tantos problemas!
Eliana – Mas isso já passou. Agora, vamos brindar à liberdade e a
seu novo filme.
Eliana dirige-se ao bar.
Ícaro – Cuidado com vinho branco francês, safra 1941, é perigoso.
Eliana – Não se preocupe, sempre achei que brindes devem ser
feitos com champanhe.
Sentam-se, bebem e observam o roteiro.
Ícaro – Parece ser um bom roteiro, mas há algumas coisas que eu
mudaria para torna-lo ainda
melhor.
Eliana – O que, por exemplo?
Ícaro – Cecilio insistia muito que deveria haver um crime, pois eu
discordo.
Eliana – É? E por quê?
Ícaro – Porque eu acho que deveria haver mais de um.
Eliana – Mais de um?
Ícaro – Sim. Cecilio descobriu a fórmula certa para prender a
atenção do espectador. Um crime
seria muito bom, mas
quero aproveitar cada recurso ao máximo. Eu colocaria vários crimes, muitos
crimes!
Eliana – Mas não seriam demais?
Ícaro – Não, se colocados na quantidade certa. Seriam crimes
inesperados, imprevisíveis.
Quando o espectador
estivesse se acostumando com um, de repente aconteceria outro, mais
surpreendente e mais absurdo que o anterior. É preciso que a trama seja
complexa para prender a atenção. A todo momento a situação iria se inverter.
Aquele personagem que num determinado momento se encontrava em vantagem, no
instante seguinte estaria em total desvantagem.
Eliana – Ícaro...
Ícaro – O que é?
Eliana – Posso lhe pedir uma coisa?
Ícaro – Claro! O que quiser.
Eliana – Posso ser a estrela de seu filme?
Ícaro – Claro! Pode sim.
Eliana – Ícaro...
Ícaro – O que é?
Eliana – Não estou me sentindo bem.
Ícaro – Está emocionada?
Eliana – Não! Estou atordoada.
Ícaro – Eu também. Minha cabeça parece que está girando.
Eliana – Será que?...
Ícaro – Não! Você não está querendo dizer que ele...
Eliana – Exatamente! É isso mesmo que estou querendo dizer.
Ícaro – Não é possível!
Eliana – É possível sim. Dele deveríamos esperar tudo.
Ícaro – Maldito!
Eliana – Ele envenenou o champanhe.
Ícaro – Ele venceu! Ai minha cabeça!
Eliana – Oh! Tanto trabalho para nada!
Ícaro – Eliana, antes de morrer, quero que você saiba que a amo
muito.
Eliana – Eu também o amo.
Ícaro – Adeus!
Eliana – Adeus, meu amor!
Caem, um para cada lado do sofá. Alguns minutos depois, Cecilio
levanta-se lentamente por trás do sofá. Olha-os divertidamente e dá uma grande
gargalhada.
Cecilio – Seus idiotas! Vocês acharam que eu iria me expor assim
tão facilmente? Eu me
preveni. De vocês eu
esperava tudo! Meu melhor amigo e minha mulher. Quem diria,
tramando minha
morte. A que ponto cheguei, ter que usar um colete à prova de balas
sob a roupa dentro
de minha própria casa. Que mundo cruel. Um homem não pode
nem trabalhar com
tranquilidade. Todos ficam tentando impedi-lo. E por quê? Por
inveja, por ciúmes.
Não suportam ver que alguém pode ser melhor do que eles. Têm
medo da
concorrência.
Senta-se entre eles.
Cecilio – Modificar meu roteiro. Que absurdo! Perdem até a noção
da ética. Por acaso não
sabem que a obra de
um artista é sagrada? Não pode ser mudada?
Folheia o roteiro.
Cecilio – Este será um grande filme. O melhor que já fiz. Desta
vez terei sucesso. O roteiro é
perfeito... mas acho
que Ícaro tinha razão, se eu acrescentasse mais alguns crimes,
acho que ficaria
melhor.... Ícaro... Eliana... podem se
levantar agora.
Ícaro e Eliana se levantam.
Cecilio – Deu tudo certo. O roteiro funciona.
Eliana – Que bom!
Ícaro – Parabéns. Tenho certeza de que será um grande filme.
Cecilio – Sim, mas eu não poderia saber disso se não fosse com a
ajuda de vocês. Não sei como
agradecer.
Eliana – No meu caso é fácil. É só me dar o papel principal. Ícaro
disse que me daria no filme
dele.
Ícaro – E no meu caso, é só você deixar de criar tantos problemas
em nossa sociedade.
Cecilio – Vocês são geniais. Vamos comemorar. O que vocês querem
beber?
Eliana – Champanhe!
Ícaro – Vinho!
Servem-se e brindam.
Todos – Ao nosso filme!
Ao sucesso!
A um futuro grandioso!
FIM de A arte de matar
Informações complementares
(escritas em 4 de agosto de 1991)
- Baseada no filme “Deathrap” (Armadilha Mortal), Warner Bross, Estados
Unidos, 1982.
Direção de Sidney Lumet.
Com Michael Caine, Christopher Reeve e Dyan Cannon.
- Esse filme foi baseado numa peça de Ira Levin (não consegui o nome), a
qual é frequentemente comparada a outra peça “Sleuth” (Jogo Mortal) de Anthony
Shaffer.
- “A arte de matar” é uma adaptação do filme, uma vez que desconheço a
peça de Ira Levin. Foram feitas algumas mudanças no roteiro, digamos que mais
ou menos 70% se manteve, os outros 30% foram inventados com a finalidade de
reduzir o número de atores e tornar a história mais absurda e engraçada.
- Os diálogos são totalmente originais, fazendo com que os personagens de
“A arte de matar” não sejam os mesmos de “Armadilha Mortal”. Há um forte
paralelismo, porém seu passado, seus atos e seus motivos são outros.
- Esta foi a peça que demorei mais tempo para escrever (até hoje). Pouco
mais de dois anos, havendo longas interrupções. Foi concluída em 16 de abril de
1990.
- Foi apresentada no FITA 90, juntamente com “Vermelho muito escuro”.
Estas peças e mais uma terceira, que até a presente data ainda não escrevi,
deveriam formar uma trilogia chamada “A sala”. As três peças deveriam utilizar
um mesmo cenário. Havia ainda outras coincidências: sempre três atores, sempre
acontecia um crime.
Documentos históricos
Estudo de Evandro Silveira para o cenário de A arte de matar e Vermelho muito escuro.
Catálogo (capa e duas páginas) de A arte de matar e Vermelho muito escuro. Projeto gráfico de Raul Cecilio.


