Ato necessário

Raul Cecilio
1988


Personagens
Jônatas – homem de trinta e poucos anos, fazendeiro, personalidade forte e dominadora
Davi – rapaz de 19 anos, personalidade frágil e submissa
Isabel – jovem e bela (a intrusa)

Figurino
Jônatas – calça jeans, camisa cinza, bota, paletó preto, chapéu cinza
Davi – calça jeans, camisa azul-marinho, bota
Isabel – vestido simples

Esquerda e direita deverão ser compreendidas sob o ponto de vista do ator. Deve-se supor que à esquerda, para fora do palco, encontram-se os quartos de Jônatas e Davi; à direita, o quarto de Isabel, a cozinha e a porta de entrada da casa.


CENA 1

A luz se acende lentamente. Ouve-se uma música suave. Cenário vazio. Jonatas entra, vindo da esquerda, terminando de se vestir. Volta pega dois banquinhos e coloca-os no meio do palco, atravessa a cena em direção à cozinha e desaparece. O tempo todo está chamando por Davi.

Jônatas – Davi! Acorda Davi! Davi! Acorda rapaz... Já é tarde. Há bastante coisa para ser feita. Davi! Mas todos os dias é a mesma coisa. Deixa de moleza! Venha tomar café.

Davi entra, vindo da esquerda, enrolado em um cobertor, com aparência sonolenta e senta-se em um dos banquinhos.

Jônatas – Davi! Você já se levantou?

Davi – Já!

Jônatas volta com um bule e uma xícara. Senta-se no outro banquinho. Dá a xícara para Davi e serve –o. Davi bebe.

Jônatas – Vou até a cidade hoje. É preciso vender a colheita. Agora é a melhor época, os preços estão subindo.

Davi – Eu também quero ir.

Jônatas – Não! Você não pode.

Davi – Por quê?

Jônatas – Você é uma pessoa muito especial. É preciso preservá-lo.

Jônatas põe a mão na nuca de Davi e acaricia seu cabelo.

Davi – Não, agora falando sério. Por que eu não posso ir?

Jônatas – Há muitas coisas para serem feitas na fazenda. Alguém tem que ficar. E alguém tem que ir. Eu sou o mais experiente, conheço os comerciantes da cidade. Sei fazer os negócios. É para nosso próprio bem.

Davi – Nosso bem... nunca sei se você é bom ou mau para mim.

Jônatas – Sempre que você tiver esse tipo de dúvida, lembre-se do por quê de você morar aqui.

Jônatas levanta-se.

Jônatas – Arrume a sala e traga meu chapéu e meu paletó.

Saem, cada um para um lado. Jônatas com a xícara e o bule para a direita, Davi com os banquinhos para a esquerda. Davi volta com o paletó e o chapéu. Ajuda Jônatas a se vestir.

Jônatas – No caminho para a cidade farei uma visita à família do Elias.

A música desaparece.

Davi – Por quê?

Jônatas – Você não soube? Convidaram-no para fazer uma visita ao outro lado da montanha. Ele estava envolvido em conflitos de terra. Parece que serviram-lhe uma sopa de raízes vermelhas.

Davi mostra-se assustado. Jônatas sai.
A luz se apaga.


CENA 2

Ouve-se uma música suave. Acende-se a luz.
Há vários galhos espalhados pelo chão. Davi está recolhendo-os em feixes. Durante todo o tempo, reclama.

Davi – Eu deveria ir embora, apesar de tudo o que devo a ele. Tenho certeza de que não se arranjaria sem mim. Mas não tenho coragem, droga! Eu poderia trabalhar em qualquer fazenda. Há muita gente precisando de um empregado trabalhador e experiente como eu. Não me deixar ir à cidade, que injustiça! Quem ele pensa que é? Não é meu pai, nem minha mãe, nem minha esposa. Mas deixa estar...

Num momento em que está de costas, surge Isabel. Aproxima-se silenciosamente. Davi se assusta ao percebê-la. Ficam alguns minutos sem falar nada. Davi aproxima-se cautelosamente. Ela demonstra um olhar perdido. Davi pergunta.

Davi – Quem é você?

Isabel desmaia. Davi se assusta.
Nesse momento, ouve-se uma música tensa, que irá crescendo gradativamente até o fim da cena.

Davi – Meu Deus! Moça, acorda, levanta! Aqui não é lugar. O que aconteceu? O que você tem? Moça! O que eu faço? Ai, meu Deus, se o Jônatas pegar você aqui, vai ficar furioso. Tenho que tirá-la daqui.

Davi tenta arrastá-la, depois decide carregá-la. Quando a levanta, a luz se apaga.
Nesse momento, a música está bem alta e é cortada bruscamente.


CENA 3

Ouve-se uma música agitada. Quando a luz se acende o palco está vazio. Davi caminha de um lado para outro, da direita para a esquerda levando um copo d’água, uma toalha e outras coisas, desaparece. Isabel entra, vindo da esquerda, olhando tudo com curiosidade. Davi chama-a (voz em off).

Davi – Ei, onde você está?

Davi volta para a cena.

Davi – Ah! Você está aí. Já acordou? Mas você ainda parece abatida. Espere um momento, vou pegar um banco.

Sai e volta trazendo um banquinho. Convida-a a sentar-se.

Davi – Você está bem?

Isabel balança a cabeça afirmativamente.

Davi – Qual o seu nome?

Isabel – Isabel.

Davi – Nunca aparece ninguém por aqui. Ainda mais uma moça, assim, sozinha. Como você veio parar aqui? O que lhe aconteceu?

Isabel – Eu vim de muito longe... onde eu morava... bom, meu pai... é... meus irmãos... no lugar onde eu morava...

Davi – Calma! Calma! Não se preocupe. Não é preciso falar nada está bem? Eu sou Davi.

Isabel – Você mora sozinho?

Davi – Não! Não moro. Moro com outra pessoa.

Isabel – Sua mulher?

Davi – Não.

Isabel – Sua mãe?

Davi – Não. Com um homem. Sabe, ele me encontrou quando eu era muito pequeno e me trouxe para cá. Então eu trabalho, como e vivo aqui. Mas ele vai ficar furioso quando souber que você está aqui.

Isabel – Por que?

Davi – Bem, é que ele não gosta muito de mulheres.

Isabel – Não?

Davi – Quer dizer. Você sabe, as mulheres sempre falam demais. Ficam doentes com facilidade. Não servem para morar numa fazenda. Ter uma vida dura como a nossa.


CENA 4

Acende-se a luz. Há um banquinho no palco.
Jônatas entra da direita tirando o paletó e o chapéu, chamando.

Jônatas – Davi! Onde você está? Davi, voltei!

Davi entra da esquerda, um pouco receoso.

Jônatas – Ah! Você está aí. A viagem foi boa. Vendi tudo por bons preços. Não foi fácil. Aquele pessoal da cidade é danado de esperto. Se a gente não se cuida, eles querem sempre nos passar a perna. Mas eu sei como tratar com eles. E aqui está tudo bem?

Davi tem a intenção de falar alguma coisa, mas Jônatas o interrompe.

Jônatas – Claro que está tudo bem. Aqui está sempre tudo bem. É por isso que eu gosto de chegar em casa, me faz bem essa segurança de saber que as coisas não irão mudar de uma hora para outra.

Ouve-se a voz de Isabel (em off), chamando por Davi. Jônatas cala-se bruscamente. Olha na direção do som. Isabel entra, da direita. Vê Jônatas. Percebe que fez algo que não devia e volta assustada. Depois de alguns instantes de silêncio, Davi, gaguejando muito, tenta explicar.

Davi – É... eu posso explicar Jônatas. Você não precisa ficar nervoso. Sabe... bem...  enquanto você esteve fora... eu estava trabalhando... eu nem sei como ela apareceu... eu estava lá fora... ajuntando a lenha... e aí... bem... aí ela....

Jônatas olha-o seriamente e senta-se esperando a explicação.
A luz se apaga.


CENA 5

A luz se acende. Há no palco uma pequena mesa e dois banquinhos.
Jônatas e Davi estão jantando em silêncio. Depois de alguns instantes, Jônatas pergunta.

Jônatas – Onde ela está agora?

Davi – Na cozinha... foi ela quem preparou o jantar.

Silêncio.

Davi – Não está bom?

Jônatas olha-o seriamente. Davi abaixa a cabeça incomodado.
A luz se apaga.


CENA 6

Há um banquinho no palco.
Jônatas entra, da esquerda, chamando.

Jônatas – Davi! Davi! Onde você está? As minhas botas não estão onde deveriam. Você as tirou do lugar?

Isabel entra, da direita, fica parada junto à porta com as botas nas mãos.

Isabel – Desculpe-me. Fui eu quem as tirou do lugar. Tirei-as para limpá-las.

Aproxima-se, oferece as botas para Jônatas que não as pega. Isabel coloca-as sobre o banquinho e sai com andar humilde.
A luz se apaga.


CENA 7

Ouve-se uma música suave. Há um banquinho no palco.
Isabel entra, da direita com uma vassoura, começa a varrer. Davi entra da direita, pára junto à porta. Isabel, ao vê-lo, pára de varrer, depois, disfarçando surpresa, recomeça.
Davi, um pouco sem jeito, senta-se no banquinho.

Isabel – Tão cedo?

Davi – É.

Isabel – Ele vai ficar bravo com você.

Davi – Não tem importância. Vim porque queria conversar.

Isabel – Fez tudo o que ele mandou?

Davi – Nem a metade.

A luz se apaga.


CENA 8

A luz se acende. Há uma pequena mesa com pratos e talheres e dois banquinhos no palco.
Ouve-se uma música suave.
Jônatas e Davi estão sentados. Permanecem alguns instantes calados. Jônatas olha fixamente para Davi que mantém a cabeça abaixada.

Jônatas – A limpeza do terreno está atrasada.

Davi – Amanhã eu limpo.

Isabel entra, da direita, traz uma vasilha com sopa e os serve. Ao terminar, dá um passo para trás antes de sair. Davi olha-a. Jônatas percebe o olhar de Davi. Começam a tomar a sopa.

Jônatas – A represa está com vazamento. Faz dois dias que eu pedi a você que a consertasse.

Davi – Amanhã eu conserto.

Continuam jantando calados.
A luz se apaga.


CENA 9

Ouve-se uma música suave. Há dois banquinhos no palco.
Jônatas está sentado em um dos bancos, lendo um livro. Isabel entra, da direita, com um cesto de costura e uma peça de roupa. Dirige-se ao banquinho livre, quando percebe Jônatas.

Isabel – Desculpe-me, não sabia que o senhor estava aqui. Pensei em costurar um pouco antes de dormir. Com licença.

Isabel vai em direção à porta de seu quarto. Jônatas segue-a com o olhar e antes que ela saia diz.

Jônatas – Espere... pode costurar aqui, se quiser.

Isabel volta, senta-se no banquinho e começa a costurar.
A música cresce. A luz se apaga lentamente.


CENA 10

Ouve-se uma música suave. Há um banquinho no palco.
Isabel entra vindo da direita. Traz uma vassoura e começa a varrer. Jônatas entra, vindo da direita, pára junto à porta. Isabel, ao vê-lo, pára de varrer, depois, disfarçando a surpresa, recomeça. Jônatas senta-se.

Isabel – Você?

Jônatas – Resolvi terminar o serviço um pouco mais cedo hoje. Não pensei que fosse atrapalhar.

Isabel – E Davi?

Jônatas – Mandei que fosse reunir o gado. Vai demorar.

A luz se apaga.


CENA 11

Ouve-se uma música suave. A luz se acende.
Jônatas, Davi e Isabel estão em cena. Jônatas sentado em um banquinho, à esquerda, lendo um livro. Isabel, sentada noutro banquinho, no centro, costurando. Davi, sentado no chão, à direita, mexe em alguma coisa. Permanecem alguns minutos calados.

Isabel – Vou me deitar. Boa noite.

Isabel sai. Jônatas segue-a com os olhos discretamente. Davi olha-a diretamente. Jônatas percebe o olhar de Davi. Davi procura disfarçar. Logo em seguida, Davi diz.

Davi – Eu também vou. Boa noite.

Levanta-se e sai. Jônatas continua lendo por mais alguns instantes. Depois, fecha o livro e fica pensativo.
A luz se apaga. A música diminui.


CENA 12

Cenário vazio. Penumbra.
Davi atravessa o palco cautelosamente em direção ao quarto de Isabel, ou seja, da esquerda para a direita.
A luz se apaga.


CENA 13

Um lampião é aceso fora da cena, de modo que sua luz ilumine o palco indiretamente.
Jônatas entra, vindo da esquerda, segurando o lampião. Anda cautelosamente. Pára no meio do palco por um instante. Dirige-se à extrema direita. Levanta o lampião à altura do rosto e olha como se procurasse ver alguma coisa. Dá um passo de volta e apaga o lampião.


CENA 14

A luz se acende. Ouve-se uma música suave.
Jônatas entra, da esquerda, com dois banquinhos e chama.

Jônatas – Davi!

Jônatas senta-se num dos banquinhos e arruma as botas.

Jônatas – Davi! Acorda rapaz, já é tarde!

Davi entra sonolento, vindo da esquerda, e senta-se no outro banquinho. Isabel entra, vindo da direita, com um bule e duas xícaras. Dá uma para cada um e serve-os.

Jônatas – Hoje à noite, quem irá preparar o jantar será Davi.

Isabel acha estranho.

Isabel – Mas por quê?

Jônatas – Quero levá-la para conhecer o outro lado da montanha.

Quando Jônatas fala isso, a música é interrompida. Davi pára de beber o café e olha surpreso para Jônatas. Isabel sai com o bule. Jônatas levanta-se e estende a mão pedindo a xícara de Davi. Davi levanta-se e entrega a xícara.

Jônatas – Você já sabe onde encontrar as raízes vermelhas.

Davi olha-o assustado, depois abaixa a cabeça.
A luz se apaga.


CENA 15

A luz se acende. Há uma pequena mesa e três banquinhos no palco.
Isabel está sentada no banquinho do meio. Jônatas no da direita. Davi entra, vindo da direita, carregando uma vasilha onde pode-se ver um caldo vermelho. Põe a vasilha sobre a mesa, serve o prato de Isabel e senta-se no banco da esquerda. Quando Isabel começa a tomar a sopa, ouve-se uma música tensa.

Isabel – Está deliciosa. Vocês não vão tomar?

Jônatas olha fixamente para Davi, põe sopa no prato dele. Davi leva a colher à boca sem muita convicção do que deve fazer, mas é interrompido por Isabel que dá demonstrações de que não está se sentindo bem.
A música cresce.

Isabel – Com licença, não estou me sentindo muito bem.

Sai em direção a seu quarto. Davi levanta-se e tenta seguí-la, mas é impedido por Jônatas.
A luz se apaga. A música diminui.


CENA 16

O lampião é aceso fora de cena, de modo que sua luz ilumine o palco indiretamente.
Ouve-se a voz de Davi (em off), recitando várias rezas que nunca termina. Jônatas atravessa o palco, lentamente, em direção ao quarto de Isabel, levando um lençol estendido. Quando Jônatas desaparece, Davi diz, quase gritando.

Davi – Deus! E eu nem sei rezar!

O lampião apaga-se.


CENA 17

A luz se acende. Cenário vazio. Ouve-se a mesma música da cena 1.
Jônatas entra da esquerda trazendo dois banquinhos e coloca-os no meio do palco. Atravessa a cena em direção à cozinha e desaparece, sempre chamando.

Jônatas – Davi! Acorda! Já é tarde. Há muita coisa para ser feita. Todos os dias é a mesma coisa.

Davi entra, enrolado num cobertor, como na primeira cena e senta-se num dos banquinhos.

Jônatas – Davi, você já se levantou?

Jônatas entra com um bule e uma xícara. Dá a xícara para Davi. Na hora em que vai servi-lo, não há café no bule. Davi olha-o intrigado.

Davi – acabou o café?

Jônatas – Não. Claro que não. Você sabe que aqui nunca falta nada. Eu vou buscar.

Sai e volta em seguida. Serve Davi. Observa-o atentamente. Põe a mão em seu ombro. Davi inclina a cabeça, devagar, até encostar o rosto na mão de Jônatas.
A música cresce antes de diminuir e desaparecer. A luz se apaga.