Raul Cecilio
1986
Personagens
Mário Camilo – escritor e pescador
Renato – soldado
Julieta Vargas – cantora de cabaré
Lúcia – namorada de Renato
Obs. Julieta Vargas e Lúcia poderão ser representadas pela mesma atriz.
Cenário – o palco deve ser dividido em duas partes, sendo que uma delas, à esquerda (compreendida sob o ponto de vista do espectador), deve ocupar um décimo do comprimento do fundo do palco, onde estará colocado um tablado, sobre o qual, achar-se-á arrumada uma cama com cobertores e travesseiros. Esta cama deve estar rodeada por cortinas esfarrapadas, dando a impressão de uma cabana. Os outros nove décimos do palco, à direita, devem ser, simplesmente, uma parede branca onde serão projetados slides.
Luzes apagadas. Ouve-se o barulho de explosões e metralhadoras em crescendo. A estes, acrescenta-se o ruído de motores de avião. Aos poucos, o barulho de explosões e metralhadoras desaparece. Permanecendo, insistentemente, o ruído do motor de um avião, que, depois de alguns minutos, também desaparece, como se estivesse se distanciando.
Depois de alguns instantes de silêncio, inicia-se uma seqüência de slides mostrando o céu e o mar, tranqüilos, praias com ondas se quebrando mansamente. Ouve-se o barulho do mar.
(pelo lado direito do palco entra um velho com as roupas sujas e rasgadas, carregando uma rede de pesca)
Foco de luz acompanha o velho.
(antes de chegar ao meio do palco, o velho dirige-se à boca de cena, senta-se, coloca a rede entre as pernas e começa a remendá-la)
Velho – Não há peixes hoje. O mar recusa-se a dá-los. São poucos e preciosos. São como jóias que contém a vida presente e futura. Há muito tempo que as águas cinza lançam um alerta no ar. Não se pode tocar na natureza, sem que haja perda. A natureza é mãe sábia e generosa que tudo dá e só pede respeito. É claro que ainda há esperança. Mas o caminho para o futuro está sendo esquecido.
(às vezes, pára o que está fazendo)
Velho – Há sempre uma pequena sensação de conforto quando, depois de um dia de trabalho intenso, chega a hora de voltar para casa. Toda casa é um refúgio, não importa os espíritos que a habitem, se de triunfo ou de derrota. Bem, hoje não conseguirei pescar nada.
(levanta-se, pega a rede e dirige-se para o meio do palco)
Algumas luzes do fundo do palco são acesas mostrando o corpo de um jovem soldado caído.
Velho – o que é isso?
(aproxima-se, abaixa-se junto ao jovem soldado e levanta seu rosto, deixando ver manchas avermelhadas em torno dos olhos. Sua roupa está suja e rasgada. Possui escoriações no rosto e nas mãos. Quando o velho mexe em seu corpo, o soldado geme)
Velho – Está vivo! Precisa de cuidados. O destino tem sempre uma intenção muito certa quando coloca uma pessoa no caminho de outra. Como eu dizia, toda casa é um refúgio e há sempre uma sensação de conforto na hora de voltar para casa. Vou levá-lo comigo.
(enquanto o velho começa a levantar o jovem, as luzes se apagam)
Os slides de mar deixam de ser projetados. A luz no tablado se acende.
(o velho entra, pelo lado direito, trazendo o jovem soldado às costas, atravessa o palco até o tablado e, com cuidado, deita-o na cama)
Velho – Você precisava dos cuidados de sua mãe. É tão menino ainda. Mas pensando bem, não existe idade na qual as mães deixam de ser importantes. Como não desejar seus abraços quentes e carinhosos? Como não querer repousar a cabeça em seus colos e ouvi-las dizendo sempre palavras certas? Às vezes, parece-me que já não se pode mais recuperar essas sensações. Elas só nos vêm como lembranças distantes. Mas talvez nada disto faça sentido para você. Muitos jovens, agora, não conhecem suas mães. São filhos do conflito. O mundo é sua família.
(pega uma jarra com água e panos, que estavam ao lado da cama)
Velho – Se doer, por favor, grite.
(põe-se a lavar os olhos do soldado, a cada toque do pano ele geme)
Velho – Às vezes, me pergunto o que os pais de hoje ainda têm para ensinar a seus filhos. E os filhos, o que ainda podem aprender com seus pais? Sabe, eu queria muito ter tido um filho. Toda vez que vejo um menino brincando, risonho e curioso, esse desejo toma conta de mim. Fico me lembrando de todas as coisas que vi, todos os prazeres que tive. Queria poder falar disso a alguém.
(ao acabar, amarra com cuidado uma faixa de pano limpo em torno dos olhos do soldado. O soldado mexe-se e geme. O velho aproxima o rosto querendo descobrir o que ele deseja)
Velho – Seria muito bom se você dormisse. A realidade é, às vezes, um sonho desagradável.
(o soldado mexe-se novamente e chama)
Soldado – Lúcia! Lúcia!
Velho – Calma! Você está bem agora. Não há perigo aqui.
(toda vez que o velho fala, o soldado se acalma, assim que o velho se cala, o soldado recomeça sua súplica)
Soldado – Lúcia! Lúcia!
Velho – Quem é Lúcia? Você está preocupado com ela? Não, não se preocupe, com certeza, Lúcia está em algum lugar seguro e está bem.
(levantando-se sobre os cotovelos, grita)
Soldado – Lúcia!!!
(depois, baixando a cabeça, começa a soluçar. O velho coloca as mãos em seu ombro e ajuda-o a se deitar novamente)
Velho – Calma! Ela é muito importante para você, não é mesmo?
(pensativo)
Velho – As mulheres sempre são importantes. Por isso mesmo são feiticeiras. Sua magia está no olhar, no caminhar, no mover-se. Está em ser mulher. Todo homem procura uma pessoa para estar presente em sua história e dividir com ele cada momento. Gostaria que você pudesse me contar sua história.
(relembrando)
Velho – Em minha vida também houve uma mulher. Seu nome era Julieta, muito bonita, cabelos pretos, lisos. Mas eu me apaixonei mesmo foi por sua voz. Ela trabalhava à noite, cantando em um bar.
A luz da cabana do velho apaga-se. É projetado um slide mostrando um bar. Em primeiro plano há um piano de calda. A luz do slide deixa ver uma moça parada no meio do palco que corresponde à descrição feita acima. Ouvem-se os acordes de um blues tocados ao piano. A moça começa a cantar, lentamente, dolorosamente. As músicas que Julieta Vargas irá cantar nesta peça podem ser canções de Billie Holliday. Ao final da música, o slide é apagado e a luz da cabana do velho é acesa.
Velho – Eu ia vê-la todas as noites que podia. Aquela foi uma época muito difícil. Havia rumores de revolução, os quais acabaram por se confirmar. A revolução estourou seis meses depois de nosso primeiro encontro e se transformou nesta guerra em que vivemos.
(cada vez mais triste)
Velho – Quando a conheci, fiquei prontamente apaixonado. Foi então que comecei a escrever. Escrevi para ela e sobre ela. Descobri um enorme prazer ao criar mundos, eu vivia o que escrevia. Nunca antes havia sido tão feliz, tão realizado. Continuei enquanto foi possível. Só parei quando o mundo alterou seus valores e os interesses passaram a ser outros. Até que chegou um tempo em que escrever tornou-se uma atitude subversiva, condenada e perseguida. Os escritores mudaram de profissão, as livrarias foram fechadas. Porém, antes disso, tive tempo de escrever muita coisa. Um escritor é sempre um pouco profeta.
(falando diretamente ao soldado)
Velho – Até histórias parecidas com a sua eu imaginei.
(relembrando)
Velho – “Os meninos chegaram à beira de um abismo e depositaram suas bagagens. Alguns deixaram-se cair de exaustão, outros puseram-se em pé e fitaram o horizonte. Ao longe, viram as luzes de uma cidade que explodia continuamente, encobrindo a luz das estrelas, então compreenderam que o futuro estava lá. Precisavam descobrir um meio de atravessar o abismo e chegar até a cidade. Mas o que não sabiam é que...”
A luz da cabana do velho apaga-se e um foco dirigido ao meio do palco é aceso.
(o soldado vestido como um rapaz comum, camiseta, jeans, tênis, está sentado no chão, lendo um livro. Para maior agilidade nesta cena, pode-se usar o seguinte recurso: durante o tempo em que Julieta Vargas estiver cantando e a cabana do velho estiver com a luz apagada, o ator que faz o soldado pode sair, sem ser visto, atravessando as cortinas de trás da cabana, sua ausência pode ser preenchida por um dublê ou um boneco usando roupas iguais às dele. O soldado dá continuidade à fala do velho)
Soldado – “...levavam o futuro dentro de si”. Não entendi.
(aproxima o livro dos olhos)
Soldado – “Mas o que não sabiam é que levavam o futuro dentro de si”.
(falando para a platéia)
Soldado – O que significa isso? Alguém saberia me explicar?
(atônito)
Soldado – Mas, também, por que estou lendo esse livro?
(examina a capa)
Soldado – “Instruções de derretimento”. Mas que coisa esquisita! Quem escreveu isso só pode ter sido uma pessoa meio maluca.
(levanta-se)
Soldado – Mas por que estou lendo esse livro? Só me lembro que eu estava com sono e não tinha nada para fazer. Não! Não é nada disso, estou confundindo as coisas, isso foi bem antes....
(anda de um lado para outro)
Soldado – Mas o que estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Certa vez, Lúcia me contou a história de um país onde as pessoas que não obedeciam às ordens do imperador eram levadas para um lugar distante e mantidas isoladas pelo resto da vida. Será que esse lugar é aqui? Lúcia? Lúcia?
(com receios)
Soldado – Mas quem é mesmo Lúcia? Quando foi que ela me contou essa história? Ah! Lembrei, foi antes de eu viajar! Mas não consigo me lembrar para onde eu viajei, nem por quê. Uma coisa que eu não compreendo é por que sempre gostei tanto de livros. Uma vez até roubei um...
(relembrando)
Soldado – Isso eu me lembro bem. Era uma noite escura. Ouvimos gritos e muito barulho, corremos para ver o que era. A polícia estava desapropriando a casa de um velho comerciante muito conhecido em nosso bairro. Haviam descoberto que ele fazia comércio de livros. Os policiais, depois de baterem muito no velho e jogá-lo na calçada, começaram a tirar, lá de dentro, pilhas e pilhas de livros e a colocá-los dentro de um caminhão. De repente, na minha frente, um dos policiais tropeçou e deixou cair todos os livros que levava. Ofereci-me para ajudá-lo, abaixei-me. Sem querer coloquei o joelho sobre um dos livros. Foi então que percebi que, se quisesse, poderia ficar com aquele para mim. Foi o que fiz, coloquei todos os livros nos braços do policial, menos o que estava sob meu joelho. Depois que ele se afastou, peguei o livro e, rapidamente, escondi-o dentro do casaco. Sempre que posso leio um pouquinho.
(rindo carinhosamente)
Soldado – Lúcia é que não gostava. Sempre dizia para eu me livrar dele.
(angustiado)
Soldado – Lúcia, Lúcia, onde você está?
(perdido e confuso)
Soldado – Se, ao menos, eu soubesse onde eu estou.
(começa a andar e retorna ao livro)
Soldado – E este livro? “Mas o que eles não sabiam é que levavam o futuro dentro de si”.
(entra o velho pescador, porém com uma aparência bem mais jovem e elegantemente vestido. Começa a atravessar o palco, mas o soldado, vendo-o, o interpele)
Soldado – Espere!
(o velho pára)
Soldado – Poderia me dizer que lugar é esse?
Velho – Não!
Soldado – Não?
Velho – Não faço a menor idéia. Estou apenas de passagem.
Soldado – Quem é você?
Velho – Meu nome é Mário Camilo.
Soldado – Mário Camilo?... Mário Camilo,... esse nome não me é estranho.
(Mário sorri satisfeito)
Soldado – Mas não me lembro de seu rosto.
Mário Camilo – Provavelmente você não me conheceu pessoalmente, eu fui escritor.
Soldado – Escritor? Escritor mesmo? Puxa!
(Mário percebe o livro na mão do soldado)
Mário Camilo – Você está segurando um livro?
(escondendo-o)
Soldado – Não! Sim...
Mário Camilo – Você não sabe que eles estão proibidos?
Soldado – Sei.
Mário Camilo – Deixe-me ver esse livro.
(o soldado se altera)
Soldado – Nunca!
Mário Camilo – Calma, não precisa se preocupar. Lembre-se que eu fui escritor. Você pode confiar em mim.
Soldado – Está bem.
(entrega o livro)
Mário Camilo – “Instruções de derretimento”.
(surpreso)
Mário Camilo – Mas fui eu quem escreveu este livro.
Soldado – Você? Não acredito.
Mário Camilo – Fui eu sim. Leia aqui. Mário Camilo, é o meu nome.
Soldado – Puxa! Eu já li este livro mais de trinta vezes.
Mário Camilo – É mesmo?
Soldado – Sim, gosto muito, mas tem uma parte que eu não compreendo. Talvez você possa me esclarecer.
Mário Camilo – Com prazer.
(o soldado pega o livro de volta)
Soldado – Escute, “Os meninos chegaram à beira de um abismo e depositaram suas bagagens. Alguns deixaram-se cair de exaustão, outros puseram-se em pé e fitaram o horizonte. Ao longe, viram as luzes de uma cidade que explodia continuamente, encobrindo a luz das estrelas, então compreenderam que o futuro estava lá. Precisavam descobrir um meio de atravessar o abismo e chegar até a cidade. Mas o que não sabiam é que levavam o futuro dentro de si”. Afinal, onde estava o futuro, na cidade ou dentro deles?
Mário Camilo – Como continua o livro?
Soldado – Não sei, nunca passei dessa parte.
Mário Camilo – Não?
Soldado – Toda vez que chego aqui e não compreendo, recomeço.
Mário Camilo – Pois o futuro está, justamente, em continuar. O futuro estava tanto na cidade, quanto dentro deles, só o que precisavam fazer era continuar. Você precisa continuar.
Soldado – Mas a minha busca presente é no passado.
Mário Camilo – Continue.
Soldado – Estou procurando uma pessoa.
Mário Camilo – E quem é?
Soldado – Chama-se Lúcia, mas não me lembro de nada. Não sei se ela é minha amiga, irmã ou namorada. Só sei que preciso encontrá-la.
Mário Camilo – Por quê?
Soldado – Ela tem todas as respostas.
Mário Camilo – E quais são as perguntas?
Soldado – Não sei, talvez, justamente sobre o futuro.
Mário Camilo – Tente lembrar-se de alguma coisa.
Soldado – Eu não consigo!
Mário Camilo – Um lugar,... um fato...
Soldado – Nada.
Mário Camilo – Nesse caso, fica difícil ajudar.
(o soldado fecha os olhos e põe a mão na cabeça, tentando se lembrar de alguma coisa)
Mário Camilo – Bem! Eu preciso ir. Tenho um encontro marcado.
Soldado – Não, por favor! Não me deixe sozinho.
Mário Camilo – Para dizer a verdade, eu não deveria estar aqui. Só vim porque você me chamou.
Soldado – Eu?
Mário Camilo – Você ainda não percebeu que aqui você pode tudo o que desejar?
Soldado – Verdade? Mas que lugar é esse?
Mário Camilo – Isso você é quem deveria saber, afinal foi você quem me chamou.
Soldado – É? Mas não sei.
Mário Camilo – É. Bem, agora preciso ir, tenho um encontro com Julieta Vargas.
Começa, bem baixinho, uma música cantada por Julieta Vargas.
Soldado – A cantora de cabaré?
Mário Camilo – Exatamente.
Soldado – Ora, sabe, aqui no fim do livro tem a sua biografia. Eu a li, mas parecia tão irreal, tão distante. Diga-me, então é verdade que você e Julieta Vargas tiveram um romance?
Mário Camilo – Sim e o primeiro encontro vai ser daqui a pouco.
Soldado – Gostaria tanto de ver! Posso ir junto?
Mário Camilo – Se você prometer ficar bem quieto, não falar nada, pode.
Soldado – Prometo!
Mário Camilo – Então, vamos.
(saem pelo mesmo lado para onde Mário Camilo se dirigia quando foi interpelado pelo soldado)
A luz apaga-se e o som da música que havia começado, alguns minutos antes, aumenta. É projetado o slide da mesma cena do cabaré, já mostrado antes, Julieta Vargas está no meio do palco, cantando.
(Mário Camilo e o soldado entram pelo lado oposto ao que saíram e ficam aguardando o final da música. Quando Julieta Vargas termina de cantar, Mário Camilo se aproxima. O soldado fica observando de longe)
Mário Camilo – Boa noite.
Julieta Vargas – Boa noite.
Mário Camilo – Eu venho aqui todas as noites, somente para ouvi-la.
Julieta Vargas – É mesmo? Como nunca o vi antes?
Mário Camilo – Viu sim, todas as noites você canta olhando para mim.
Julieta Vargas – O senhor é um tanto pretensioso, não?
Mário Camilo – Está bem, não precisa admitir. Eu já sei qual é a verdade.
Julieta Vargas – E qual é a verdade Sr.....?
Mário Camilo – Mário Camilo.
Julieta Vargas – Sr. Mário Camilo?
Mário Camilo – A verdade é que a Srta. deseja muito encontrar alguém que provoque uma grande transformação em sua vida.
(Julieta se mostra debochada)
Julieta Vargas – Hum!
Mário Camilo – A Srta. está cansada da vida que leva. Cansada de ser cantora de cabaré, de ter patrões que a exploram, ter amantes que não a valorizam, e além disso...
Julieta Vargas – Tem mais ainda Sr. Mário Camilo?
Mário Camilo – Sim, além disso, a Srta. está com medo.
Julieta Vargas – Eu? Medo de quê?
Mário Camilo – Medo do futuro. Ele é incerto. Há rumores de revolução. Se isto acontecer, a situação se tornará desagradável. A Srta. é estrangeira, não é Srta. Julieta Vargas?
Julieta Vargas – Sou de um país do norte.
Mário Camilo – Quando a revolução começar, talvez a Srta. precise sair do país. Nesse caso, seria bom se a Srta. conhecesse pessoas influentes, que lhe garantissem uma saída segura e não seria, em absoluto, uma má idéia sair acompanhada de uma pessoa interessante. Talvez a Srta. não saiba, mas eu sou jornalista e conheço algumas pessoas influentes. Além disso, sempre desejei morar no exterior. Não é preciso temer o futuro Srta. Julieta Vargas, só o que não se deve fazer é desistir.
Julieta Vargas – Sr. Mário Camilo, sua história é bem imaginativa. Estou bem aqui.
Mário Camilo – Eu tenho certeza de que não está Srta. Julieta Vargas, sabe quem me disse?
Julieta – Quem?
Mário Camilo – O tom de sua voz, enquanto cantava.
(Julieta ri)
Julieta Vargas – O Sr. chega a ser engraçado.
Mário Camilo – E sabe qual a maneira de a Srta. confirmar o que estou dizendo?
Julieta Vargas – Qual é a maneira Sr. Mário Camilo?
Mário Camilo – É me convidando para que a acompanhe até sua casa.
Julieta Vargas – Não posso fazer isso, Sr. Mário Camilo.
Mário Camilo – Não?
Julieta Vargas – Já convidei a outro.
Mário Camilo – Sei, um daqueles que a Srta. deseja esquecer.
Julieta Vargas – Ora, mas amanhã não tenho ninguém para me acompanhar.
Mário Camilo – Amanhã, então.
Julieta Vargas – Até amanhã, Sr. Mário Camilo.
(antes de sair, Julieta Vargas dá a mão a Mário Camilo, que nela encosta os lábios suavemente)
As luzes do palco se acendem.
(Mário Camilo se aproxima do soldado)
Mário Camilo – Você viu? Foi assim.
Soldado – E você voltou no dia seguinte?
Mário Camilo – Voltei.
Soldado – E então?
Mário Camilo – Seis meses depois, quando a revolução estourou, nós saímos do país, viajamos para o Norte. Iniciamos uma vida juntos que durou alguns anos.
Soldado – E como acabou?
Mário Camilo – As guerras acabaram nos separando.
Soldado – Definitivamente?
Mário Camilo – Definitivamente.
Soldado – Que fim triste.
Mário Camilo – Não! Fomos felizes durante muito tempo. Tudo o que fizemos foi buscar o futuro, sempre.
Soldado – É engraçado como as mulheres podem ser tão diferentes. Julieta e Lúcia, tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes.
Mário Camilo – Lembrou-se de alguma coisa?
Soldado – Sim. Lúcia era muito delicada, mas demasiadamente decidida, cheia de personalidade. Chegava a dominar as pessoas com suas idéias. Tinha ideais e lutava por eles. Acreditava que a humanidade poderia ser melhorada. Às vezes, me dizia que eu precisava lutar pela paz. Nunca entendi. Lutar? Pela paz? A paz consegue-se lutando? Eu a amava e, no entanto, não a compreendia. O que torna os seres humanos difíceis, é que não existe um igual ao outro.
(alguns instantes de silêncio, o soldado fica pensando)
Soldado – Mas tudo piorou quando ela me disse que queria viajar com o Renato.
Mário Camilo – Quem é Renato?
Soldado – Não sei. Droga! Não consigo lembrar.
Mário Camilo – E ela viajou?
Soldado – Acho que viajou. Sim... depois eu viajei atrás. É, foi assim que aconteceu. Isto é, acho. Ah! Se eu pudesse conversar com ela.
Mário Camilo – Mas você pode. Aqui você pode tudo.
Soldado – Mas como fazer?
Mário Camilo – Lembre-se de como eram os encontros de vocês.
Soldado – Nós subíamos a uma colina para olhar a paisagem e conversar.
As luzes apagam-se. É projetado um slide mostrando um morro com uma grande planície abaixo.
Soldado – Eu olhava para aquela planície e dizia: gostaria que fosse o mar. Sabe, eu gosto muito do mar. Marcávamos nossos encontros ali. Eu sempre chegava primeiro e ficava olhando a paisagem. Ela, quando chegava, ia direto para aquelas pedras.
(aponta para o tablado onde está a cama do pescador. Neste momento, entra Lúcia, usando roupa em estilo levemente militar, e senta-se na beira do tablado)
(o soldado fica surpreso)
Soldado – Sr. Mário, é ela.
Mário Camilo – Eu não disse? Vá até lá.
(o soldado adianta-se apressado e feliz. Abraça Lúcia com força)
Soldado – Lúcia!
Lúcia – Oi Renato!
Soldado – Renato? Então eu sou Renato?
Lúcia – É, lembrou-se agora?
Renato – Sim, sim, é comigo que você quer viajar?
Lúcia – É, a passagem está marcada para amanhã às 10 horas. Você precisa estar no aeroporto pelo menos uma hora antes.
Renato – Mas Lúcia, é perigoso!
Lúcia – Por favor! Não comece de novo. Nós já discutimos isso tantas vezes. Eu já lhe disse que não há perigo. Nós não estaremos sozinhos.
Renato – O problema não é o perigo, mas é que estaremos fazendo as coisas escondido.
Lúcia – Naturalmente, é preciso que haja segredo, não podemos chamar a atenção.
Renato – Mas é isto que está errado. Não devemos fazer nada oculto. É preciso que tudo torne-se público e declarado. É preciso que as pessoas saibam o que está acontecendo, para que possam formular uma opinião a respeito.
Lúcia – Isso é impossível. Já está tudo planejado. O sucesso depende do segredo. O futuro depende disto.
Renato – Futuro, futuro, essa palavra começa a me aborrecer.
Lúcia – Renato, eu tenho um compromisso daqui a pouco. Preciso ir, e você precisa decidir. Lembre-se, o avião sai às 10 horas, você precisa estar no aeroporto uma hora antes.
(abraçam-se mais uma vez, demoradamente. Lúcia sai)
As luzes se acendem.
(Mário Camilo se aproxima)
Mário Camilo – Às vezes, me pergunto como pode haver, nos dia de hoje, pessoas que acreditam em algo mais certo do que o impossível. Você foi afinal?
Renato – Não! Este foi o meu erro. Não tive coragem de continuar, fiquei. Todos os dias eu lia nos jornais as notícias da guerra. O conflito foi aumentando, aumentando. Depois de um mês de angústia e dúvidas, resolvi ir. Precisava encontrar Lúcia e ficar a seu lado.
Mário Camilo – E encontrou?
Renato – Não. Quando cheguei ao local do conflito, as frentes de batalha já eram muitas. Assim que recebia notícias de que Lúcia estava em determinado lugar, ia até lá, mas nunca a encontrava. Ela era ativa demais, não parava em nenhum lugar. Não demorou muito e o mundo todo se viu envolvido pela guerra. Então ficou mais difícil procurá-la. Andei o mundo todo e não a encontrei. E agora o que eu faço? Eu preciso continuar. Você disse que só alcança o futuro quem continua. Diga-me, o que devo fazer?
(começa a chorar)
Mário Camilo – Não sei! Não há resposta para tudo.
(abraça Renato)
Renato – Tudo o que eu queria era encontrar Lúcia e levá-la para morar comigo em uma casa sobre uma colina parecida com aquela onde nos encontrávamos só que, de frente para o mar.
Mário Camilo – Renato, eu preciso lhe dizer uma coisa muito séria. O futuro não acontece somente para aqueles que não desistem. Ele acontece também para aqueles que sabem esperar. Às vezes, chega um momento em que não se pode fazer mais nada. Então, é preciso saber esperar. Se algum dia, eu ficar bem velhinho, sabe o que eu quero? Quero virar pescador. Morar perto da praia, numa cabana bem pequenina. Quero aprender a pescar usando rede. Quero ficar bem longe da cidade, das livrarias e das editoras.
Renato – Mário, você nunca pensou em morrer?
Mário Camilo – Já, muitas vezes, eu vivo pensando nisso. Aí está a continuidade. Eu tenho certeza de que algo muito melhor virá depois, e eu espero por isso. Para alcançar o futuro é preciso, apenas, continuar e esperar.
Renato – Se eu morrer antes de encontrar Lúcia, quero ser enterrado naquela colina que já falei.
Mário Camilo – E eu gostaria de só mais uma coisa, para tornar mais agradável o tempo enquanto espero, queria poder ouvir as músicas que Julieta cantava.
As luzes se apagam. É mostrado um slide do cabaré com o piano, só que desta vez, tudo está muito mais branco. Julieta canta mais uma música. Quando a música termina, a luz do tablado se acende. Ali estão, novamente, o velho e o soldado, como no início da peça. O velho está lendo um livro que é o “Instruções de derretimento”.
Mário Camilo – “E quando os meninos saíram às ruas, viram a luz da última explosão. O fogo subiu aos céus e iluminou seus rostos. Fecharam os olhos, pois a luz era forte e poderia cegá-los. Depois, o céu voltou a ficar escuro e silencioso. Eles sabiam que tudo estava acabado. Lentamente, foram abandonando a cidade, subiram numa colina próxima e ficaram esperando o sol. Tinham certeza de que ele não falharia”.
(Mário Camilo deposita o livro sobre o tablado e abaixa-se para verificar como Renato está. Ao perceber que o jovem morreu, deixa-se cair lentamente sobre seu corpo e abraça-o)
Mário Camilo – Eu sei, eu sei, eu o compreendo. Às vezes, não dá mais para continuar. Quem não sabe de nada vai pensar que foi desistência, mas não. Eu sei que não. É preciso saber esperar. Você aprendeu a esperar, você vai conseguir. Nós ainda vamos nos encontrar naquela colina em frente ao mar, eu, você, Lúcia, Julieta e todos os outros. Até breve Renato.