O
URSO
Raul Cecilio
1991
PERSONAGENS
1 – Edmundo
2 – Júlio
3 – Lucas
4 – Érica
5 – Padre Téo
6 – Elisandra (seu fantasma)
7 – Tácito
...
A
luz da manhã venceu a cordilheira e avançou planalto adentro. Foi trazendo cor
às árvores, aos barrancos, às pedras, aos arbustos, ao capim. Em instantes
percorreu quilômetros e atingiu o telhado da Casa Grande. Uma construção antiga
com alicerces de pedra situada no limite de imensas pastagens e grandes
plantações. Naquela hora do dia suas portas e janelas se encontravam fechadas.
Porém alguns raios de luz se insinuaram pelas frestas e se espalharam pelos
ambientes internos. O salão principal conjugava sala de jantar e estar. Entre
os dois ambientes uma porta dava para um corredor de acesso aos quartos. Uma
grande mesa escura e doze cadeiras dominavam a sala de jantar. Encostado a uma
parede um balcão de madeira rústica. Sobre ele toalhas bordadas à mão, vasos,
porta-retratos e várias caixinhas pintadas. A seu lado um pilão. Entre o pilão
e a porta de entrada, uma porta larga dava para o vestíbulo que por sua vez
conduzia à cozinha. No vestíbulo via-se uma mesa. Sobre a mesa uma bacia e um
jarro. Na parede oposta ao balcão, do outro lado da grande mesa escura, junto à
janela, uma cristaleira onde se acomodava uma coleção de bibelôs. Mais adiante
uma vitrola e, dando um ar nostálgico, vários retratos de família nas paredes.
O outro ambiente, do mesmo tamanho, era ocupado por um sofá, poltronas, mesas e
tapetes. Num canto um armário alto de portas inteiriças. A seu lado no chão um
cesto de palha. Do outro lado, meio escondido, um pequeno altar abandonado, sem
santo. Apenas alguns escorridos de vela e a fuligem grudada sobre a pintura
onde se viam algumas cabecinhas de anjo com as asas presas às nucas e um
cachecol de nuvens no lugar de corpo. Sobre as paredes da sala de estar,
troféus de caça, uma cabeça de veado, um maxilar de anta, uma pele de
suçuarana, alguns chifres, dois chicotes e uma espingarda de cano comprido.
Mansamente,
sem fazer barulho, um imenso urso negro cruzou a porta do vestíbulo vindo da
cozinha e com delicadeza se pôs a caminhar entre os móveis. De vez em quando
parava frente a um objeto e se punha a observá-lo com atenção. Em seguida
meneava a cabeça como se quisesse espantar algum pensamento indesejado. Depois
retomava o passo pesado e vagaroso. Caminhou ao lado da longa mesa. Deteve-se
diante de cada quadro e repetiu os gestos. Era como se lhe evocassem
lembranças. Após cumprir o ritual com todos os retratos se dirigiu à sala de
estar. Permaneceu longo tempo fitando a espingarda de cano comprido.
Um
homem parou junto à porta do corredor. Vinha como quem acabou de se levantar.
Estava descalço segurando as botas, a camisa deabotoada e tinha as calças por
fechar. Era alto, magro, ombros largos, braços fortes. Sua aparência era uma
mistura rude e bela. Os cabelos desalinhados caíam sobre a testa alta. Os olhos
infantis e brilhantes não combinavam com as faces fundas e as linhas marcadas
em torno dos lábios. Aparentava menos idade do que deveria ter. Seu rosto se contraiu
numa expressão de desagrado.
Jul
– O que você está fazendo aqui?
Perguntou
com voz grave e poderosa. O urso voltou-lhe a cabeça lentamente, sentou-se
sobre as patas traseiras e encolheu os ombros.
Jul
– Você esteve outra vez naquele maldito celeiro?
O
urso desviou o olhar.
Jul – Eu já disse milhares de vezes que não quero que você
vá até lá. Não quero que saia de seu quarto, mesmo à noite. Ninguém deve vê-lo.
O
urso balançou a cabeça em sinal de consentimento. O homem procurou mais alguma
coisa para dizer que refletisse seu aborrecimento, mas não encontrou nada. Por
isso simplesmente ordenou.
Jul
– Vá para seu quarto!
O
urso se levantou e cambaleou em direção à porta. O homem se desviou de seu
caminho. Antes porém que ele passasse acrescentou.
Jul
– Eu e o Lucas estamos indo até a vila. Não saia de seu quarto até voltarmos!
O
uso atravessou a porta e desapareceu na penumbra do corredor. O homem o viu se
afastar com uma expressão preocupada. Depois se sentou numa cadeira, calçou as
botas, abotoou a calça e a camisa e saiu chamando.
Jul
– Lucas! Lucas!
...
No
decorrer do dia a luz do sol se tornou mais intensa. Apesar das janelas
continuarem fechadas a sala ganhou um pouco de luminosidade e se aqueceu. Lá
fora o passar das horas se revelava pelos sons. Na metade manhã um cachorro
latiu. Um pouco antes do almoço as galinhas cacarejaram e na hora mais quente
as cigarras começaram a cantar. No meio desses sons que, de certa forma são
semelhantes ao silêncio, pois não incomodam, ouviu-se algo diferente. Quatro
batidas fortes na porta. Depois delas o silêncio dos sons da fazenda pareceu
ainda maior. Após um minuto, outras batidas e uma voz.
Voz
– Tio Júlio!
Voz
de mulher.
Voz
– Tio Júlio, o senhor está? Edmundo, tio Júlio, vocês estão aí?
Outra
vez batidas e outra vez a voz.
Voz
– Há alguém em casa?
Mais
batidas, mais silêncio e mais uma vez a voz.
Voz
– Tio Júlio! Sou eu, Érica! Por favor abra a porta!
O
urso ouviu as batidas e o chamado. Lembrou-se da proibição, mas não se conteve.
Voltou à sala e se colocou perto da porta. Lá fora, depois de alguns instantes
de espera a voz retornou um pouco mais ansiosa.
Eri
– Tem alguém em casa? Ei! Alguém está me ouvindo? Por favor!
O
urso balançou o corpo. Levantou-se. Aproximou-se até quase colar o rosto na
porta. Girou em torno de si algumas vezes e novamente se aproximou da porta.
Eri – Tio Júlio! Edmundo! Sou eu, Érica! Sua sobrinha! Vim
fazer-lhes uma visita. O senhor está me ouvindo?
O
urso balançou a cabeça afirmativamente. Deu alguns passos para trás e se
sentou.
Eri – Acho que não estão. Tio Júlio, se o senhor não abrir
a porta, não vou esperar... eu volto mais tarde!
O
urso, paciente, permaneceu sentado em frente à porta a tarde toda. Esperando
por alguém que soubesse se a porta deveria ou não ser aberta.
...
Um
pouco antes do final do dia, num momento em que o sol lançava raios quase paralelos
à superfície das pastagens e tingia de dourado a tudo em seu caminho, Júlio
chegou da vila. Ao cruzar a porta deu de cara com o urso sentado no chão,
esperando.
Jul
– O que você está fazendo aí?
O
urso se levantou. Fez sinais, indo até a porta e voltando várias vezes.
Jul
– O que aconteceu? Por que você está tão agitado?
O
urso se levantou novamente. Repetiu os mesmos gestos e acrescentou outros.
Júlio o observou atentamente. Sua testa se franziu numa expressão de
preocupação.
Jul
– Talvez seja melhor trancar a porta de seu quarto. Volte para lá!
O
urso obedeceu. Júlio foi até o armário alto de portas inteiriças onde apanhou
uma chave e se dirigiu aos quartos. Voltou depois de alguns minutos, guardou a
chave no mesmo lugar. Foi até a porta e chamou.
Jul
– Lucas!
Quase
imediatamente Lucas chegou. Era um homem pequeno e robusto. Seu corpo e sua
pele demonstravam que era um homem do campo. Seu rosto era sereno. Parecia que
nada poderia surpreendê-lo. Para ele nada era novidade. Era como se já tivesse
experimentado tudo ou quase tudo. Vestia-se como peão, botas, esporas, calça de
brim, camisa xadrez, uma cruz no pescoço e chapéu largo. Seus olhos eram ágeis
e atentos, prontos para as ordens do patrão.
Luc
– O senhor chamou seu Júlio?
Jul
– Chamei. Já terminou de descarregar?
Luc
– Já sim senhor.
Jul
– Então traga as caixas menores e coloque-as na cozinha, ao lado do
guarda-comida.
Luc
– Sim senhor.
Lucas
saiu. Júlio se sentou em uma das poltronas da sala de estar. Seu olhar vagueou
pelos troféus de caça e depois se perdeu num ponto qualquer da parede. Os
grilos lá fora começaram a anunciar o fim do dia. Não estava cansado, mas
sentia que precisava repousar, desligar-se de seus próprios pensamentos que
naquele momento se encontravam perturbados. Não sabia o que causava essa
perturbação. Tinha o pressentimento de que alguma coisa não estava exatamente
como deveria estar. Então se cansava por saber que era possível que sua
intuição estivesse certa. Poderia ter permanecido absorto em seus pensamentos
durante horas, porém foi interrompido por Lucas, trazendo as caixas de
mantimentos. Lucas parou junto à porta e pediu licença para entrar. Esperou o
patrão responder e entrou dirigindo-se à cozinha. Alguns minutos depois voltou
de mãos vazias e novamente saiu. Júlio não precisou virar a cabeça para
perceber a movimentação do empregado. Logo Lucas estava de volta com a segunda
caixa. Novamente pediu permissão para entrar. Depois de concedê-la, Júlio
resolveu acender uma luz. Levantou-se, foi ao vestíbulo, pegou um lampião e o
acendeu. Lucas voltou da cozinha.
Luc
– Seu Júlio, as caixas estão onde o senhor pediu. Quer mais alguma coisa?
Jul
– Não, pode ir.
Júlio
respondeu enquanto pendurava o lampião num prego da parede. Lucas se dirigiu à
porta de saída, porém estancou bruscamente. Júlio percebeu. Olhou para ele
intrigado. Depois para a porta. Na varanda, a um passo para entrar para dentro
da casa, estava parada uma moça segurando uma mala. Vestia-se discreta porém
elegantemente. Roupas da cidade. O casaco e a mala revelavam que estivera
viajando. Os cabelos longos estavam soltos. O rosto era belo e maduro, embora
sua juventude fosse evidente. Não tinha mais do que dezenove anos. Por alguns
instantes todos ficaram sem ação. Finalmente, timidamente, ela entrou.
Eri
– Tio Júlio?
Jul
– Érica? O que faz aqui?
Eri
– Vim visita-lo.
Jul
– A mim?
Eri
– Sim, ao senhor, ao Edmundo, aos outros...
Júlio
se deu conta da presença de Lucas, ainda no mesmo lugar, como que embasbacado.
Jul
– Pode ir agora Lucas.
Luc
– Sim... dá licença seu Júlio, dá licença dona Érica.
Érica
consentiu com a cabeça. Lucas sai.
Eri – O senhor não pareceu muito contente por me ver.
Jul – Não é isso. É que não esperava.
Eri – Eu sei. Resolvi não escrever antes. Se pedisse,
talvez o senhor não me deixasse vir. Preferi arriscar e vim sem avisar.
Érica
coloca a mala no chão e caminha pela sala observando os móveis e objetos.
Eri – Senti saudades! Eu precisava rever esta casa, estes
móveis, estes retratos. São meus antepassados também. Queria sentir novamente o
aroma da terra daqui. O cheiro da comida feita aqui. Comida de roça é
diferente. Queria poder novamente tomar o café e comer o bolo feitos pela
Eugênia.
Jul – Isso nunca mais vai acontecer.
Eri – Eu sei. Eu sei que muita coisa se perdeu. Nunca mais
poderemos viver como antes. Mas sei que sempre fica um resto de perfume nas
roupas. Sei que os móveis ainda têm as marcas que neles fizemos. As almofadas
ainda retêm um pouco de nosso calor. Senti saudades de tudo isso, de todos
vocês.
Para
frente a um quadro.
Eri
– Saudades de tia Elisandra. É tão triste pensar que ela morreu.
Júlio
se senta em uma poltrona de forma a não olhar para ela.
Eri – Estive aqui hoje à tarde. Estava tão ansiosa para
encontra-los, mas não havia ninguém.
Jul – É... fomos até a vila.
Eri – Onde está todo mundo?
Jul – Não há mais todo mundo.
Eri – Onde está Edmundo? Ainda não o vi.
Jul - Você não soube?
Eri – Não. Não sei de nada! Há dois anos minhas cartas não
têm respostas.
Jul – Agora só eu e o Lucas moramos na fazenda.
Eri – O que aconteceu aos outros?
Jul – Mandei-os embora. Não precisava de mais ninguém. Prá
que um homem sozinho precisa daquele monte de empregados?
Eri – E o que aconteceu a Edmundo?
Jul – Adoeceu.
Eri – Grave?
Jul – Depende de como você entende.
Eri – O que ele teve? Morreu?
Jul – Não!
Eri – Então?
Jul – Mas é como se tivesse morrido.
Eri – Tio, por favor! Assim o senhor me bota medo.
Júlio
se levanta, caminha. Para junto a uma parede, permanece de costas para ela.
Fita um ponto qualquer.
Jul – Ele não resistiu à morte da mãe. Ficou emocionalmente
abalado. Começou a avariar das ideias.
Eri – Por que não me disseram?
Jul – Seria pior. Você iria querer vir para cá. Não poderia
fazer nada. Iria atrapalhar.
Eri – Onde ele está?
Jul – Num hospital.
Eri – Que hospital?
Jul – É... uma clínica. Um lugar de repouso. Lá vive melhor
do que aqui.
Eri – Onde fica?
Vira-se
para ela demonstrando irritação.
Jul – Pra que você quer saber?
Eri – Quero vê-lo!
Jul – Não seria bom para ele.
Eri – Como o senhor sabe?
Jul – Nada do que passou é bom para ele.
Eri – Onde fica essa clínica?
Jul – A uns 80 quilômetros, perto da estrada que vai para a
cidade. Mas eles não a deixarão vê-lo.
Eri – Por que não?
Jul – Você precisaria de uma autorização da família.
Eri – E o senhor não daria, não é?
Jul – É.
Eri – Por quê? Eu não compreendo!
Jul – Você não deveria ter vindo.
Eri – Mas vim. Agora estou aqui.
Jul – Nesse caso, o melhor a fazer é voltar.
Eri – O que o senhor quer dizer?..........O senhor não
faria isso... eu quero dizer... não me deixar ficar.
Jul – Sinto muito. Mas é melhor você ir o quanto antes.
Aqui não é mais um bom lugar para você.
Eri – Mas eu quero ficar. Pelo menos um dia.
Jul – Não! Nem uma noite.
Eri – Tio...
Júlio
vai até a porta e chama.
Jul
– Lucas!
Érica
o fita magoada. Júlio volta para a poltrona. Lucas chega.
Luc
– O senhor chamou?
Jul
– Chamei. Érica vai voltar para a vila.
Lucas
olha Érica, procurando compreender o que se passa.
Luc – Vai voltar para a vila? Quando? Amanhã bem cedo?
Terei prazer em chama-la assim que me levantar...
Jul – Ela volta agora!
Luc – Agora? Mas...
Jul – Ainda dá tempo dela pegar o último trem para a
cidade.
Lucas
não se mexe. Érica olha quase suplicante, ora para o tio, ora para o empregado.
Jul
– O que está esperando? Leve a mala dela para a carroça, anda!
Lucas
pega a mala e sai. Érica o segue. Porém, antes de cruzar a porta olha mais uma
vez para o tio. Seu rosto demonstra mágoa e incompreensão. Júlio permanece
sentado na poltrona. Ele também está magoado. Tampouco compreendeu o que
acabara de acontecer. Alguns minutos depois pôde ouvir o barulho dos cavalos e
da carroça se afastando. Muitas horas depois, quando apagou o lampião e foi para
a cama, a única coisa que se podia escutar era o martelar monótono de um sapo à
distância.
...
O
dia seguinte pareceu amanhecer com mais pressa do que o normal. Quando Júlio
acordou os galos já haviam cantado e se ouvia um alvoroço de passarinhos. O sol
também parecia precipitado. Estava mais quente e luminoso do que seu habitual.
Júlio se levantou rapidamente. Tinha muita coisa para fazer. Melhor assim,
pensou. Preferia ficar ocupado e não ter que se lembrar da noite anterior.
Resolveu fazer café. Era só o que iria tomar. Não tinha tempo para preparar
mais nada. Já ia entrando pela porta da cozinha quando ouviu vozes no quintal e
parou. Lucas conversava com alguém.
Luc
– Ele está sim senhor, mas ainda não se levantou.
Voz
– Então, se você não se importa, nós iremos esperar lá dentro.
Um
minuto depois, o padre Téo surgiu à porta. Era um homem muito magro, pouco mais
de trinta anos, rosto inteligente. Parecia sincero no que acreditava. Quase
sempre estava alegre. Geralmente sorria. Ao avistar Júlio parado no meio da
sala, junto ao balcão, teve uma expressão de franca alegria.
Teo
– Seu Júlio! Bom dia!
Jul
– Bom dia padre.
Teo
– Que bom poder vê-lo tão cedo!
Jul
– Também acho bom... aconteceu alguma coisa?
Teo
– Não, não. Eu só vim por causa dela...
E
apontou para trás. Foi então que Júlio percebeu Érica. Parada junto à porta.
Como no dia anterior. As mesmas roupas, a mesma mala. Só que com um pouco mais
de falta de jeito.
Teo – Veja só quem encontrei na vila.
Eri – Bom dia tio Júlio! ............................... Eu
perdi o trem.
Teo – Ontem à noite, quando voltava de uma visita, não sei
por que resolvi ir pela estação. O trem tinha acabado de passar. Foi uma
surpresa encontrar Érica na plataforma. Só não a trouxe ontem mesmo porque era
muito tarde. Ela passou a noite na igreja. Achei melhor virmos logo cedo... mas
o senhor não nos convida para sentar?
Jul – Ah! Desculpem-me. Claro, que cabeça! Sentem-se. Vocês
querem café?
Teo – Não queremos incomodar.
Jul – Não incomodam. Eu estava pra me servir de um no
momento em que vocês chegaram.
O
padre e Érica se sentam. Júlio vai à cozinha. Érica ainda está pouco à vontade.
O padre a observa atentamente. Percebe o quanto está calada. Prefere não fazer
perguntas. Alguns minutos depois Júlio volta com o café. Serve-os e senta-se.
Teo – Quantos anos faz que Érica esteve aqui pela última
vez?
Jul – Cinco, acho.
Teo – Imagine o senhor que ela não queria vir.
Jul – Não?
Teo – Não. Disse que estava só de passagem pela vila. Não
vinha porque não tinha avisado. Veja só que besteira. Foi sorte ela ter perdido
aquele trem.
Jul – É... sorte...
Teo – No caminho viemos conversando sobre os velhos tempos.
Relembrando a época em que Érica viveu aqui. Ela e Edmundo praticamente
cresceram juntos. Eles têm a mesma idade não têm?
Jul – Têm. Poucos meses de diferença.
Teo – Achei que ela precisava vir. Matar a saudade. Érica
disse que não sabia que Edmundo estava doente. O senhor não avisou?
Jul – Não. Achei que seria melhor ela não saber. Iria sofrer
inutilmente.
Teo – Seu Júlio, tem certas coisas que não podemos decidir
pelos outros. Se o senhor concordar, talvez pudéssemos providenciar para que
ela o visitasse. Érica, quanto tempo você pretende ficar?
Eri – O quanto meu tio permitir.
Teo – Que bom! Então vamos ter bastante tempo. Quem sabe
também possamos programar visitas a outras pessoas que você queira rever.
Eri – Seria ótimo padre.
Teo – Seu Júlio, no caminho para cá, passamos ao lado do
cemitério. Érica quis descer. Ainda não conhecia o túmulo da tia.
Jul – Vocês pararam?
Teo – Sim. Eu lhe contei como dona Elisandra morreu. Disse
que nos pegou de surpresa. Lembro de ter me encontrado com ela na tarde do dia
anterior. Jamais poderia imaginar que naquela noite teria uma crise e não viveria
até o dia seguinte. Érica disse que não sabia que a tia estava com tuberculose.
Jul – Pouca gente sabia. Elisandra não gostava de falar.
Teo – É verdade. Eu próprio não sabia. Até aquela
crise................. Lembrar daquele inverno me deprime. Foi uma época
terrível. Fiz quatro enterros em um mês. Dois aqui e dois na cidade. Mostrei a
ela também o túmulo de Carlos. Ela também não sabia que ele havia morrido.
Jul – Não?
Teo – Pensava que tivesse ido com os outros empregados
quando foram mandados embora. De todas as quatro mortes daquele mês, a dele foi
a mais terrível. Nunca tinha visto nada igual .............................................
Bom, chega. Estou falando demais e somente de coisas desagradáveis. Não foi
para isso que vim. Vim somente trazer Érica. Já vou indo!
Jul – Já vai?
Teo – Já. Tenho o que fazer. Vou acabar me atrasando. Até
logo seu Júlio. Obrigado pelo café.
Todos
se levantam.
Teo
– Até breve Érica.
Eri
– Obrigada pela carona padre.
Teo
– Não tem de quê! Enquanto você estiver por aqui, venha me visitar qualquer dia.
Eri
– Irei sim.
O
padre cumprimenta Júlio.
Teo – Adeus seu Júlio. Vai ser bom para o senhor ter a
companhia de Érica por alguns dias. O senhor tem ficado muito sozinho aqui, só
com o Lucas.
Jul – Eu gosto de sossego.
Teo – Gostar de sossego é uma coisa, outra é se isolar.
Quando a gente evita encontrar pessoas, acaba se voltando para dentro de si
mesmo. É preciso cuidar para não desaprender o prazer das companhias. Às vezes
me parece que o senhor vive demais apegado ao passado. Isso pode não ser bom.
Jul – Eu descobri um jeito de viver a minha vida. Não
preciso de ninguém.
Teo – É disso mesmo que estou falando. Às vezes eu preferia
que o senhor fosse me visitar mais vezes.
Jul – Bem, o senhor também pode vir me visitar mais
vezes... se quiser.
Teo – Está bem. Já entendi o recado. O senhor sempre
consegue inverter a posição da conversa. Nessas eu saio perdendo.
Jul – Desculpe-me padre. Não tinha a intenção de
provoca-lo.
Teo – Não tem problema. Mas eu preciso mesmo ir. Tchau seu
Júlio. Tchau Érica.
O
padre sai. Júlio o acompanha até a porta. Logo depois volta. Ele e Érica olham-se
fixamente. Ela um pouco tímida. Ele aborrecido.
Jul – Muito bem. Você voltou. Conseguiu o que queria.
Eri – Lucas me deixou na estação alguns minutos antes do
trem passar. Não pude toma-lo. Deixei-o ir e fiquei. Tio Júlio, quantas coisas
aconteceram e o senhor não me contou! Por quê?
Jul – Você sempre foi apegada demais a tudo aqui, iria
sofrer.
Eri – E agora, por que não posso ficar? Agora já sei de
tudo.
Jul – Não seria bom.
Eri – Não vou incomodar. Prometo não mexer em nada, só vou
olhar e...
Jul – Não!... Esse é
o problema. Você vai sair por aí, olhando tudo, e vai começar a fazer perguntas.
Eri – Qual o problema com as perguntas?
Jul – É que... você ainda não sabe de tudo.
Eri – Não?
Jul – Mas é melhor que continue sem saber.
Eri – Tio, agora não dá mais para voltar. Agora já
começamos.
Jul – Dois dias somente. Até o próximo trem. Depois você
volta. Mas para seu próprio bem eu peço, não me faça perguntas. Estarei
ocupado. Não terei tempo para conversas.
Eri – Está bem, prometo.
Jul – Agora preciso ir.
Júlio
sai. Parece preocupado. Érica o observa se afastar. Depois pega a mala e caminha
para o corredor. Conhece bem a casa. Dirige-se ao último quarto. Ao passar em
frente à porta do quarto de Edmundo para por um instante. Depois continua.
Desfaz a mala em poucos minutos e descobre que não tem nada para fazer. Volta à
sala sem objetivos. Senta-se numa poltrona e observa a parede à procura de
respostas para suas perguntas. Ouve o som de um machado. Alguém está cortando
lenha. Levanta-se e vai olhar. É Lucas. Chama-o.
Eri
– Lucas! Lucas!
Alguns
minutos depois Lucas aparece à porta enxugando a testa com um lenço e as mangas
da camisa levantadas.
Luc – Chamou dona Érica?
Eri – Chamei, entre.
Luc – É que... o
patrão não gosta que eu fique dentro da casa. Só entro para fazer coisas
pequenas e saio logo.
Eri – Tio Júlio acabou de sair. Não volta tão cedo. Entre e
sente-se.
Lucas
entra com receio e se senta numa poltrona. Érica se senta quase em frente a
ele.
Eri – Queria saber umas coisas.
Luc – Saber o quê?
Eri – Coisas que estão acontecendo por aqui e não estou
entendendo.
Luc – Não sei se é bom a gente conversar disso. Talvez seja
melhor deixar ficar como está.
Eri – Você tem certeza de que prefere deixar as coisas como
estão?
Luc – Certeza tenho não, mas não acho bom falar.
Eri – E se as coisas estiverem erradas?
Luc – Bom... pra falar bem a verdade dona Érica, acho que
coisa errada deve ser arrumada.
Eri – Que bom, Lucas! Que bom que você pensa assim.
Luc – Agora se a senhora não se importa, queria voltar pro
meu trabalho.
Levanta-se
e dirige-se à porta.
Eri
– Eu só ia perguntar quando foi que meu tio mandou os outros empregados embora.
Lucas
para.
Luc
– Logo depois da morte de dona Elisandra.
Lucas
retoma o caminho para a porta.
Eri
– Logo depois quanto? Um mês, dois meses, um ano?
Novamente
ele para.
Luc
– Menos, uns dias.
Eri
– Por quê?
Luc
– Isso não sei.
Eri
– Por que você ficou?
Luc
– Isso também não sei. Talvez...
Lucas
volta e se senta novamente.
Luc - ... acho que eu era o mais chegado. Antigamente, eu e
o patrão saiamos pra caçar. Eu era o único que acompanhava ele nessas saídas.
Nem o filho nunca ele levou. Eu pensava que quando o menino crescesse eles iam
ser companheiros, mas não aconteceu assim.
Eri – Como aconteceu?
Luc – Eles eram diferentes... Edmundo não servia pra vida
da fazenda. Era inteligente, falante, cheio de qualidades. Todo mundo gostava
dele. Destinado a ganhar o mundo... parecia iluminado.
Enquanto
ouvia a descrição que Lucas fazia de Edmundo, Érica se permitiu relembrar as
próprias impressões. Constatou que a maneira como percebia o primo coincidia
com a de Lucas.
Eri – E tio Júlio como é?
Luc – A senhora sabe. É homem muito bom, mas o mundo dele é
aqui, pequeno. Não gosta nem de ir à vila. Parece que fora daqui ele é só um
pedaço dele mesmo.
Eri – Onde está Edmundo?
Luc – Não sei.
Eri – Quando ele foi embora?
Luc – Depois dos empregados.
Eri – É... parece que foi depois da morte de tia Elisandra
que as coisas por aqui começaram a ficar estranhas. Eles andaram brigando?
Luc – Quem?
Eri – Meu tio e Edmundo.
Luc – Não! Nunca brigavam, se gostavam demais pra brigar.
Mas... seu Júlio andava aborrecido, calado. Tinha alguma coisa comendo ele por
dentro.
Eri – E com tia Elisandra ele andou brigando?
Luc – Não também, mas acho que posso dizer que... é só
palpite meu, mas acho que era dona Elisandra quem aborrecia ele.
Eri – Por quê?
Luc – Sei não, mas dona Elisandra tava bem diferente dele.
Andava alegre, muito alegre, cheia de vida.
Eri – Mas estava doente, tinha tuberculose.
Luc – Não parecia nada.
Eri – A morte dela como foi?
Luc – Morreu de noite, no celeiro.
Eri – No celeiro?
Luc – Fui o primeiro a entrar lá. Estava caída entre os
sacos de milho. Vi logo que alguma coisa tava errada. Fui correndo chamar o
patrão.
Eri – Você não a olhou de perto?
Luc – Não. O patrão chegou assustado. Carregou logo com ela
dali e trancou o celeiro. Não deixou ninguém entrar. No dia seguinte foi o
enterro. O padre veio pra encomendar a alma dela. Na outra semana seu Júlio
começou a mandar os empregados embora. Seu primo Edmundo foi ficando cada vez
mais calado, cada vez mais trancado em casa. Não saía pra nada. Té que um dia
nunca mais vi. Seu Júlio contou que ele tava doente e tinha ido prum lugar se
tratar.
Eri – Um lugar que você não sabe onde é.
Luc – Sei não senhora.
Eri – Está bem Lucas. Obrigada. Pode voltar para o
trabalho.
Lucas
se levanta, mas fica parado.
Luc
– É que... dona Érica, tem mais uma coisa.
Senta-se
novamente. Aproxima o corpo como quem falar em segredo. Érica se aproxima
também.
Luc – Acho que é importante... uma semana antes de
encontrar dona Elisandra morta no celeiro, eu tinha encontrado o Carlos no
mesmo lugar... morto... e dona Érica...
Lucas
para um momento como para tomar fôlego ou coragem. Érica percebe um profundo
silêncio que parece dominar a casa e os arredores.
Luc – Ele tava horrível... machucado... cortado,
estraçalhado. No rosto, peito, pescoço.... seu Júlio veio ver. Disse que foi
bicho... urso!
Eri – Urso?
Luc – Mas não parecia machucado de bicho... eu conheço. Sei
como é e como não é. E tem mais, bicho não mata à tôa. Mata pra comer. Ele tava
todinho lá. Cortado mas todo lá.
Eri – Estranho.
Luc – Estranho ele andava antes de morrer.
Eri – Como assim?
Luc – Não parecia o Carlos de antes, alegre, falador,
trabalhador, disposto pra tudo.
Eri – E como ele andava?
Luc – Andava pensativo. Parecia ter um segredo. Andava
feliz, mas o que o deixava feliz não contava pra ninguém. Andava faltando com o
serviço, coisa que nunca tinha feito. Chegava atrasado. Às vezes no meio do
turno sumia. Depois voltava como se nem tivesse sumido. Andava misterioso. Isso
durou uns tempos, até que apareceu morto............................... Agora
já vou dona Érica.
Eri – Está bem, pode ir. Obrigada. Não se preocupe, não vou
falar nada do que conversamos com meu tio.
Luc – Se a senhora não falar eu agradeço. Não sei se devia
ter contado. A senhora sabe, eu sempre obedeço as ordens do patrão. Não faço
nada que ele não queira que eu faça. Mas isso, acho que a senhora precisava
saber. A senhora é da família. Conhecia dona Elisandra, seu Edmundo, e foram
coisas tão estranhas que aconteceram. Coisas que não entendo. Às vezes é bom
falar com outras pessoas pra saber o parecer delas. Talvez se a senhora pensar
nisso tudo consiga entender melhor que eu.
Eri – Não sei não Lucas. Bem que eu gostaria de
compreender, mas obrigada por contar.
Luc – Vejo que a senhora ficou preocupada.
Eri – Eu já estava preocupada. Só vou ficar tranquila
quando as coisas se esclarecerem. Você ajudou muito.
Luc – Já vou indo, dá licença.
Eri – Pode ir Lucas. Mais uma vez obrigada.
Érica
permaneceu longo tempo na poltrona. Passou aquele dia pensativa. As informações
a deixaram impressionada. Na hora do almoço teve esperança de que o tio viesse.
Imaginava que depois de uma manhã trabalhando, sua irritação pudesse diminuir.
Era possível que ele refletisse e percebesse que não havia sido razoável na
maneira como a havia tratado. Afinal era evidente que as intenções dela eram
boas. Só estava tentando ajudar. Quem sabe se com uma conversa adequada ela
conseguisse que ele lhe contasse mais alguma coisa. Esperou em vão. Por fim
almoçou sozinha. Evitou mexer nas coisas da casa. Pelo menos aparentemente não
queria desobedece-lo. Numa hora em que passava em frente à porta do quarto de
Edmundo teve vontade de entrar. Ao forçar o trinco verificou que a porta estava
fechada. Estranhou. Aquele não era o hábito da casa. Passou a tarde na
expectativa. Aguardando o tio. Quem sabe ainda pudessem tentar um entendimento.
Anoiteceu. O crepúsculo lançou luzes vermelhas nas paredes. Érica o assistiu
encostada ao batente da porta. Aguardando. Acendeu um lampião. Pendurou-o num
prego. Sentou-se numa poltrona. Prestou atenção ao pio de uma coruja. Quase
adormeceu. Desistiu. Resolveu ir se deitar. Algumas horas depois começou a
ventar. Quando Júlio abriu a porta uma lufada agitou a chama do lampião. Júlio
observou o ambiente com cuidado. Percebeu que Érica já havia se recolhido. Foi
até a cozinha. Esquentou um pouco de comida. Saiu carregando um prato quente.
Foi até o armário alto de portas inteiriças. Apanhou a chave, colocou-a no
bolso e se dirigiu a um dos quartos do corredor.
...
No
meio da noite Érica acordou com falta de ar. Sua cabeça doía, girava. Seu corpo
parecia pesado. Sentiu-se invadida por uma profunda angústia e uma sensação de
impotência. Era como se o ambiente a oprimisse e ela não pudesse reagir.
Decidiu se levantar. Se bebesse um copo d’água talvez melhorasse. Com lentidão
saiu do quarto, percorreu o corredor e chegou à sala. Ao lado da mesa sentiu as
forças faltarem. Apoiou-se no encosto de uma cadeira. Ouviu um barulho na porta
atrás de si. Ao se virar se surpreendeu com o que viu. Um enorme urso negro
cruzou a porta, mostrou os dentes e caminhou em sua direção. Gritou apavorada e
desmaiou.
Alguns
instantes depois Júlio chegou à sala. Irritou-se ao ver o urso ali. Com
aspereza lhe ordenou que voltasse ao quarto. O urso obedeceu. Por um momento
Júlio parou ao lado de Érica e a observou. Sentiu um misto de carinho e
desagrado. Tomou-a nos braços e a levou para cama. Depois voltou à cozinha
trazendo o prato que no início da noite de lá havia tirado. Retornou à sala.
Guardou a chave no armário alto de portas inteiriças e foi se deitar. O vento
aumentou em intensidade.
...
A
chegada da manhã seguinte foi mansa. Parecendo indiferente aos acontecimentos
da noite anterior. As primeiras luzes surgiram bem cedo e se permitiram crescer
sem pressa. O dia amanheceu tão sutilmente que os galos não cantaram. Quando se
pôde perceber já estava claro e um pássaro começara a cantar. Naquela noite
Júlio quase não dormiu. Acordou cansado. Desejou que o dia passasse rápido. Por
um momento se sentiu extremamente velho. Foi até a cozinha e preparou o café.
Na mesa da sala arrumou um lugar. Depois se lembrou de Érica e arrumou outro.
Estava no meio da refeição quando ela chegou. Parecia abatida. Sentou-se quase
em frente a ele sem cumprimentar, como se não o tivesse visto. Por fim ele perguntou.
Jul
– Você está bem?
Ela
se surpreendeu ao vê-lo tão perto.
Eri – Não. Dormi mal. Sonhei muito. Sonhos desagradáveis.
Eu estava sendo perseguida por um animal grande e escuro... acho que era um
urso e... é estranho... parecia que eu estava aqui, nessa sala, ele quase me
apanhou e... então não lembro mais.
Júlio
parou de tomar café para escutá-la. Depois, sem fazer comentários, continuou.
Eri
– Também sonhei com tia Elisandra.
Ele
para novamente.
Eri – Ela estava linda, sorridente, parecia muito feliz.
Caminhava aí fora na frente da casa. Usava um vestido de florzinhas vermelhas.
Jul – Como?
Eri – Um vestido bonito, florido. O que foi?
Jul – Nada... é que... como você sabe?
Eri – O quê?
Jul – Desse vestido?
Eri – Eu não sei de nada. Foi só um sonho. Por quê?
Júlio
parece se lembrar de alguma coisa.
Jul
– Ela estava usando esse vestido quando morreu.
Eri
– Eu não sabia juro! Foi só um sonho.
Júlio
volta a beber o café. Permanecem alguns minutos em silêncio.
Eri
– Tio, antes de tia Elisandra morrer ela estava feliz como no sonho?
Ele
demora um pouco para responder.
Jul
– Estava.
Eri
– O que aconteceu entre ela e o Carlos?
Júlio
a olha como quem não compreendeu.
Jul – Como?
Eri – Antes de morrer tia Elisandra estava feliz. Carlos
também e andava faltando no serviço... alguma coisa estava acontecendo.
Jul – O que você está querendo dizer?
Eri – Eu nada, mas o que os fatos parecem estar querendo
dizer?
Jul – Fatos? Você andou sonhando tudo isso.
Eri – Mas o senhor confirmou meu sonho. Disse que ela
estava feliz e usava um vestido florido.
Jul – E paro por aí. O resto é imaginação sua. Nunca houve
nada entre eles.
Eri – Mas tudo faz sentido.
Jul – O que não faz sentido é continuarmos essa conversa.
Júlio
se levanta bruscamente e sai. Érica o observa se afastar. Sente vontade de
chama-lo, mas sabe que não adiantaria. Depois de alguns minutos se serve de
café. Começa a bebê-lo em pequenos goles. Lucas aparece à porta.
Luc – Bom dia dona Érica.
Eri – Bom dia Lucas. Quer café?
Luc – Não obrigado. Estou só procurando o patrão.
Eri – Já saiu.
Luc – Tão cedo? A senhora viu pra onde ele foi?
Eri – Não. Não vi, mas eu se fosse você não ia atrás dele
agora. Hoje tio Júlio parece muito aborrecido.
Luc – Aconteceu alguma coisa?
Eri – Mais ou menos. O problema é que eu estou aqui.
Luc – A senhora falou da nossa conversa pra ele?
Eri – Não falei nada. Só contei um sonho e ele ficou
irritado. Entre e sente um minutinho.
Luc – Se a senhora quer fazer mais perguntas não posso,
eu...
Eri – Não quero não. Só quero lhe contar o sonho que tive.
Lucas
entra e se senta.
Eri
– Sonhei que estava sendo atacada por um urso aqui nessa sala.
Lucas
a ouve atentamente.
Eri – E também sonhei com tia Elisandra. Ela estava andando
aí em frente da casa com um vestido de florzinhas vermelhas. Você me disse que
ela morreu com esse vestido?
Luc – Não senhora.
Eri – Então eu sonhei mesmo. Mas você disse que Carlos foi
atacado por um urso.
Luc – Não! Quem disse isso foi o patrão. Eu disse que os
machucados dele não pareciam de urso.
Eri – Mas você disse que você e o tio Júlio costumavam sair
para caçar.
Luc – Sim senhora.
Eri – Não caçam mais?
Luc – Não senhora.
Eri – Por que não?
Luc – Não sei não senhora. A gente caçava quando o patrão
queria. Ele não quis mais.
Eri – Faz tempo que ele não quer mais?
Luc – Na última vez ele não me chamou. Foi sozinho. Caçou o
urso.
Eri – Que urso?
Luc – O que matou o Carlos.
Eri – Mas você disse que não foi urso.
Luc – Mas o patrão disse que foi.
Eri – Você está querendo me confundir?
Luc – Não senhora. Vou contar direito como foi que
aconteceu. No dia seguinte ao que Carlos morreu o patrão saiu com a carroça.
Disse que ia caçar o urso que tinha matado ele. Voltou depois de seis dias com
o urso atrás. Debaixo de um encerado. Era um montão enorme. Devia ser um urso
muito grande.
Eri – Você não viu?
Luc – Não senhora. Ele parou a carroça perto da casa. Não
deixou ninguém ver. No outro dia o urso não tava mais lá. Seu Júlio disse que
tinha enterrado ele de madrugada......................................Essa foi
a última vez. A espingarda dele agora tá ali na parede.
Érica
olha para a espingarda.
Luc
– Eu conheço o som dela direitinho. E... sabe quando eu o escutei pela última
vez?
Eri
– Não.
Luc
– Na noite depois que ele enterrou o urso.
Eri
– Sei... você disse que ele ficou fora seis dias.... então essa foi a noite em
que titia...
Érica
percebe que não há necessidade de completar a frase. Lucas se levanta
lentamente e se dirige à porta. Porém antes de sair para e volta um passo.
Luc
– Dona Érica.
Ela
olha para ele.
Luc – Bicho tem alma?
Eri – Ãh?
Luc – A senhora vai achar que eu tô ficando maluco, mas às
vezes tenho a impressão de que o fantasma desse urso anda por aí... eu nunca vi... mas tem noite que eu tenho certeza que seu
Júlio não tá sozinho. Pra mim é o urso que vem atormentar ele. Outras noites o
urso vai até o celeiro. Os cachorros latem e fogem. Não têm coragem de se
aproximar......................................... Alguma coisa esquisita anda
acontecendo por aqui.
Diz
isso e sai. Érica permanece envolta em seus pensamentos. Muito tempo depois
ouve alguém chamando-a.
Voz – Érica?
Eri – Padre!
Teo – Bom dia.
Eri – Padre que bom que o senhor veio!
Teo – Está tudo bem por aqui?
Eri – Mais ou menos. Tio Júlio está muito estranho.
Teo – Onde ele está?
Eri – Saiu. Padre, o Lucas me contou umas coisas de
arrepiar.
Teo – Você não devia ficar fazendo perguntas.
Eri – Mas eu nem insisti. No fundo ele estava querendo
contar. O senhor quer café?
Teo – Não obrigado.
Eri – Quero fazer uma visita agora. O senhor vem comigo?
Teo – Você quer visitar quem?
Eri – Edmundo.
Teo – Mas... eu não sei onde ele está.
Eri – Tio Júlio disse que ele está numa clínica a uns 80
quilômetros perto da estrada que vai para a cidade. O senhor conhece?
Teo – Sim. De fato ali tem uma clínica. Como eu nunca soube
que ele estava lá?
Eri – Não estranhe. Não saber das coisas por aqui é
bastante comum. Espere um minuto, já volto.
Érica
vai até o quarto se arrumar. Enquanto aguarda, o padre observa a louça do café.
Érica volta. Tira a mesa e saem.
...
O
dia prosseguiu de maneira decidida. Houve momentos em que o sol brilhou com
grande intensidade. O calor aumentou quase ao ponto do exagero. Nessas horas só
o que se ouvia era o piado distante de algumas aves. Mais tarde a temperatura
baixou e os cavalos saíram ao pasto. Pôde-se ouvir seus relinchos. Um bando de
gansos veio grasnar próximos à casa. Perto do final da tarde alguns insetos
esvoaçaram por ali. Júlio chegou num momento em que o ambiente estava
agradável. A casa estava silenciosa. Percebeu logo que não havia ninguém e
imediatamente se dirigiu à cozinha. Preparou um pouco de comida. Saiu com um
prato quente. Foi ao armário. Pegou a chave e entrou no corredor. Passado algum
tempo voltou e devolveu a chave no armário. Sentiu calor. Desabotoou a camisa.
Saiu. Retornou com um balde de água e foi para o vestíbulo. Despejou a água
numa bacia. Retirou a camisa e se lavou. Voltou para a sala. Com uma mão
segurava uma toalha e enxugava os cabelos. Com a outra segurava a camisa. Nesse
momento Érica e o padre Téo chegaram.
Teo
– Boa tarde seu Júlio!
Júlio
põe a toalha e a camisa sobre o balcão e vai cumprimenta-los.
Jul – Boa tarde padre.
Eri – Boa tarde tio.
Jul – Boa tarde.
Teo – Levei Érica para fazer uma visita, mas perdemos a
viagem, a pessoa não estava.
Jul – Não diga! Devem estar cansados.
Teo – Na verdade estou preocupado. Tinha tantas coisas para
fazer e acabei perdendo a tarde.
Jul – Realmente isso é de deixar a gente por conta. O
senhor não sabia que a pessoa tinha saído?
O
padre Téo e Érica se olham. Ele responde meio receoso.
Teo – Não...
Jul – E aqui tudo fica longe. Pra se fazer uma visita é
necessário deixar tudo muito bem arranjado antes. Eu não aceito esses modos
modernos de não se respeitar compromissos. É falta de consideração.
Teo – Não se preocupe seu Júlio. Na verdade não foi nada
demais.
Jul – Sente-se padre e descanse um pouco.
Teo – Não obrigado. Estou com tanta pressa que nem lembro
que estou cansado. Preciso voltar à vila antes que anoiteça.
Jul – Pensei que o senhor fosse jantar conosco.
Teo – Seria um prazer, mas não posso. Passei o dia fora.
Tenho muito que fazer. Agradeço o convite, mas fica para outro dia.
Jul – Quando o senhor quiser.
Teo – Até logo seu Júlio.
Jul – Até logo padre.
Teo – Tchau Érica.
Eri – Tchau padre e obrigada.
O
padre Téo sai. Júlio o acompanha até a porta. Volta acende o lampião e o
pendura no prego de costume. Depois apanha a toalha e a camisa e se dirige ao
corredor. Érica o chama.
Eri
– Tio!
Ele
para e se volta.
Eri
– Sabe quem fomos visitar?
Ele
a olha intrigado.
Eri – Edmundo.................. e como o padre falou,
perdemos a viagem. Fomos àquela clínica onde o senhor disse que ele estava
sendo tratado. Os médicos foram muito atenciosos. Disseram que Edmundo nunca esteve
internado ali. Mostraram-me os registros. Não vi o nome dele. Nem sequer
conhecem o senhor. Tio, quando o senhor vai me falar a verdade? ..................................
Onde está Edmundo?
Jul – Para que você quer saber?
Eri – Quero vê-lo.
Jul – Para quê?
Eri – Para saber o que ainda não sei.
Jul – E o que pensa que vai conseguir com isso?
Eri – Compreender por que não posso vê-lo.
Jul – Ele está em lugar seguro.
Eri – Lugar seguro? Como assim? O senhor está querendo
protege-lo de quê?
Júlio
coloca a camisa e a toalha novamente sobre o balcão. Volta até o meio da sala.
Jul – Sei que não devia fazer isso, mas você não vai
desistir enquanto não obtiver respostas. Então está bem. Procure se lembrar.
Pense em Edmundo como você o conheceu há cinco anos. Seu rosto, seu cabelo, seu
sorriso, seu jeito, seu comportamento, sua conversa. Ele era o adolescente mais
encantador que você já viu não é?
Eri
– Bem... sim...
Jul – Você se dá conta de que ele parecia exercer um grande
poder sobre as pessoas? Havia nele uma força de sedução poderosa. Ninguém
resistia. Nem você. Você se apaixonou por ele não foi?
Eri – Sim... mas eu
também era adolescente. Sentimentos fortes são comuns nessa idade.
Jul – Mas se transformam em loucura se forem fortes demais.
Você não foi a única. Outras pessoas também se deixaram encantar. E cada uma
delas desejou ardentemente possuí-lo exclusivamente para si. Você não suportava
mais o olhar dos colegas de escola sobre ele. Você fazia de tudo para tirá-lo
do meio das outras pessoas. Você não via a hora da aula acabar para voltarem
para casa. Aqui você o tinha mais para si. Sempre que podia você preparava um
passeio, um piquenique, algum motivo para estar a sós com ele. Muitas vezes
vocês desapareciam durante toda a tarde. Mesmo quando ele ia ver os peões
domando os potros ou treinando os cães, coisas que ele gostava, você não
suportava o olhar dos outros rapazes sobre ele. Você estava sempre tentando
isolá-lo. Não conseguiu. Então você se isolou......... Por que não ficou onde
estava? Por que você voltou?
Eri
– Saudades.
Jul – Não! É porque você ainda não conseguiu esquecê-lo.
Você não deveria ter voltado. Esqueceu por que você foi embora?
Eri – Porque comecei a namorar Tácito.
Jul – Mentira, Tácito era somente um pretexto. Você queria
causar ciúmes em Edmundo. Mas não foi só esse o motivo de você ter ido embora.
Houve outro acontecimento importante, ou você já se esqueceu?
Eri – Do que o senhor está falando?
Jul – Você teve que sair daqui às pressas, não era mais
bem-quista. Todas as pessoas da vila e da redondeza queriam você longe daqui.
Ou melhor longe de seus filhos depois do que você fez a Leonora.
Eri – Foi um acidente!
Jul – Não foi um acidente! Você a cegou porque ela olhava
demais para Edmundo e você sentia ciúmes.
Eri – Não! Foi um acidente! Ela tropeçou e caiu sobre os
espinhos. Estávamos brincando.
Jul – Ela tropeçou ou foi empurrada?
Eri – Tio! O senhor está sendo cruel. Por que está fazendo
isso?
Jul – Porque não quero que você veja Edmundo.
Eri – O senhor não tem o direito de me impedir. Onde ele
está?
Jul – Você nunca o encontrará. Eu não o internei. Ele não
poderia ficar em nenhuma clínica, em nenhum hospital. Não há lugar onde ele
possa ficar. Não estou tentando protege-lo de nada. Estou querendo é proteger
as pessoas dele. Para seu próprio bem vá embora.
Eri – Vocês nunca gostaram de mim não é mesmo? O senhor e
tia Elisandra. Nunca aceitaram que eu me apaixonasse por ele. Por quê? Lembro
como se fosse hoje, depois do acidente com Leonora, tia Elisandra demonstrou um
empenho enorme para conseguir uma vaga para mim num colégio da capital. Dentre
todos era ela quem mais parecia querer me ver longe daqui.
Jul – Isso não é verdade. Nós sempre gostamos de você. Você
cresceu aqui, sempre foi como uma filha para nós.
Eri – Sim. Até Edmundo crescer e eu me apaixonar por ele.
Jul – Foi melhor para você ter se afastado dele. Ele é
perigoso.
Eri – Isso é o que o senhor está tentando me fazer
acreditar. O fato de eu ter me apaixonado por ele e sentir ciúmes não significa
que ele seja perigoso. Por que o senhor está tentando fazer com que eu sinta
culpa por isso? Todo mundo se apaixona aos quinze anos. Eu também tinha o
direito. E não tente me convencer de que o que aconteceu com Leonora não foi
acidente. Eu estava lá. Eu sei. O senhor está querendo me fazer acreditar em
coisas que não são verdade. São invenções suas. E eu sei porquê! O senhor está
querendo me afastar daqui porque estou descobrindo seus segredos. Por que tanto
medo? O que o senhor tem para esconder? Por que há tantos mistérios nessa casa?
Por que a porta do quarto de Edmundo está sempre fechada? O que aconteceu com
Carlos e tia Elisandra? Por que ela morreu uma semana depois dele? São tantas
perguntas e não há uma só resposta. Diga-me tio. Dê-me uma resposta só. Quem
matou Carlos?
Jul
– Um urso.
Eri – É mentira! Os ferimentos dele não foram feitos por
animal. O senhor inventou esse urso! Inventou que o caçava! O amontoado atrás
da carroça era uma farsa! .......................................... Quem matou
Carlos?
Jul – Você quer mesmo saber?
Eri – Quero!
Jul – Foi Elisandra!
Eri – Titia?
Jul – Eu já lhe disse. Você não quis acreditar. Carlos
também não resistiu aos encantos de Edmundo. Numa noite Elisandra os encontrou
no celeiro. Não se conteve. A primeira coisa que avistou foi um facão que
ficava por ali, matou-o.
Eri – Não é possível!
Jul – Eu sei que é difícil de acreditar. Por isso inventei
a história do urso. As pessoas estavam mais dispostas a acreditar nisso do que
admitir que uma pessoa tão pacata quanto Elisandra fosse capaz de um crime
hediondo.
Eri – Mas se foi por ciúmes, então isso significa que tia
Elisandra também...
Jul – Exatamente! Ela também não resistiu... ela também se deixou seduzir.
Eri – Isso é loucura!
Jul – Isso é a verdade!
Eri – Mas... por que
ela morreu uma semana depois? Tia Elisandra era forte. Nunca teve tuberculose,
e... quem disparou sua espingarda
naquela noite?
Jul – Naquela noite nós discutimos. Disse a ela que aquilo
não podia mais continuar. Ela teria que fazer uma opção. Um dos dois, ela ou
Edmundo teria que deixar a fazenda. Ela não respondeu, mas fez a escolha.
Depois que me deitei, ela apanhou minha espingarda, foi ao celeiro e se matou.
Um tiro no pescoço.
Eri – Não posso acreditar!
Érica
parece atordoada. Senta-se em uma poltrona. Apoia a cabeça nas mãos por alguns
minutos. De repente se levanta, olha para o tio e fala com firmeza.
Eri – Muito bem. Admitamos que esse absurdo seja verdade.
Se isso realmente aconteceu o senhor foi hábil. Parabéns! Conseguiu encobrir
tudo muito bem, mas ainda há uma coisa sem resposta.
Júlio
a fita com grande expectativa.
Eri
– Onde está Edmundo?
Érica
se aproxima dele. Fala quase num sussurro.
Eri
– Por que a porta do quarto dele fica sempre fechada? Quem está trancado lá?
Sai
correndo em direção ao quarto de Edmundo. Tenta abrir a porta, mas está
fechada. Começa a esmurra-la e a gritar.
Eri
– Edmundo! Sou eu! Érica. Edmundo!
Júlio
corre atrás e a segura com firmeza. Carrega-a de volta para a sala. Ela se
debate. Escapa de seus braços, empurra-o. Foge para fora. Júlio tenta
persegui-la, mas ela desaparece na escuridão da noite. Ele volta. Sua expressão
é de extrema preocupação. Sente-se desnorteado. Deixa-se cair no sofá. Joga a
cabeça para trás. Cobre os olhos com uma mão. Alguns minutos depois entra o
fantasma de Elisandra. Usa o vestido florido, um chapéu. Está toda coberta por
um véu fino. Senta-se ao lado dele. Júlio tira a mão de sobre o rosto e a fita.
Jul
– As coisas estão confusas.
Els
– Meu querido, você não devia se preocupar tanto.
Jul
– Estou com medo!
Els
– Você é o homem mais forte que já conheci.
Jul
– Tomei tanto cuidado para que ninguém descobrisse nada.
Els
– Você sempre foi tão capaz.
Jul
– Mas Érica desconfia. Faz perguntas. Deixa-me inseguro.
Els
– Ela ficou uma mulher muito bonita.
Jul
– Daqui a pouco vai saber tudo.
Els
– Agora compreendo porque eles se apaixonaram.
Jul
– O que vai acontecer depois?
Els
– O que sempre acontece.
Jul
– Sinto-me fraco.
Els
– Eu sinto frio.
Jul
– Se você ficasse sempre comigo...
Els
– Você disse que eu precisava fazer uma escolha.
Jul
– Eu também tive que escolher.
Els
– Foi tão difícil.
Jul
– Foi muito difícil.
Els
– Eu o amava tanto!
Jul
– Eu também a amava tanto!
Els
– Você é egoísta.
Jul
– Procuro ser correto.
Els
– E autoritário.
Jul
– Há tanto trabalho na fazenda.
Els
– Nunca me compreendeu.
Jul
– Sempre dei tudo para minha família.
Els
– Perdi todos os meus sonhos.
Jul
– Gastei toda minha força.
Els
– O que mais amei no mundo foi o filho que Deus me deu.
Jul
– Sempre amei minha terra, minha família, meus antepassados.
Els
– Aprendi a me conformar.
Jul
– Aprendi a comandar.
Els
– Me iludi.
Jul
– Deixei-me enganar.
Els
– Eu precisava reviver.
Jul
– Eu precisava me preservar.
Els
– Prometa-me uma coisa.
Jul
– O que?
Els
– Não guardar mágoas de mim.
Jul
– E você? Vai guardar mágoas de mim?
Elisandra
se levanta.
Els
– Prometa-me...
Caminha
em direção à porta.
Els
– Prometa-me...
Sai.
Ele reassume a posição anterior. A cabeça jogada para trás. A mão sobre os
olhos. Depois de vários minutos se levanta. Está solonento. Apanha a toalha e a
camisa de sobre o balcão. Vai para seu quarto. Adormece. A casa permanece em
profundo silêncio. Depois de algumas horas Érica retorna. Chega cautelosamente.
Observa o ambiente com atenção. Entra sem fazer barulho. Caminha até o meio da
sala. Olha com desconfiança para o corredor. Vai até o balcão. Abre as gavetas.
Vasculha-as com cuidado. Procura entre os vasos, porta-retratos, na
cristaleira. Avista o armário alto de portas inteiriças. Caminha até ele.
Abre-o lentamente. Encontra a chave e a pega. Pé ante pé se dirige à porta do
quarto de Edmundo e a abre. Volta e devolve a chave ao lugar de origem. Encosta-se
na parede ao lado do altar. Mantem-se meio oculta. Olha para a porta do
corredor e espera. Não demora muito e o urso chega. Vem caminhando em seu passo
bamboleante e pesado. Para junto à porta. Cheira o ambiente. Dá alguns passos em
direção à cozinha. Para novamente e cheira o ar. Volta-se para onde Érica está.
Avista-a. Ela o olha num misto de medo e curiosidade. Lentamente ele se
aproxima. Ela está apavorada, mas não quer gritar. O urso para em sua frente.
Levanta a pata direita e afaga seus cabelos. Ela fecha os olhos. Ele diz.
Urs
– Érica!
Por
um momento ela quase não acredita no que ouve. Depois como quem de repente
compreende tudo abraço-o.
Eri
– Meu querido!
Ele
a abraça também.
Eri – Edmundo! Meu querido Edmundo! O que tio Júlio fez com
você?
Edm – Não foi ele. Fui eu mesmo.
Eri – Como?
Edm – Faz dois anos que não converso com ninguém.
Eri – Não entendo.
Edm – Decidi que seria melhor assim. Ele precisava de um
urso. Eu lhe dei um urso.
Eri – Por que?
Edm – Para preservar a memória de minha mãe. Eu gostava
dela... sinto tanto a falta dela...
tenho estado tão só. Na minha vida nunca pude ter as coisas que gostei.
Perdi tudo que mais amei. Perdi minha mãe, perdi meus amigos, perdi meus
melhores anos.
Eri – Edmundo estou de volta. Voltei para ajuda-lo.
Caminham
até o sofá e se sentam.
Eri
– Nunca mais vou deixa-lo.
Abraçam-se
novamente.
Eri – Tire isso.
Edm – Não!
Eri – Mas é preciso, senão nada acontece.
Edm – É perigoso.
Eri – Não pense nisso. Isso é mentira.
Edm – Há sempre um grande perigo em todas as atitudes.
Depois de realizado um ato, não há quem impeça as consequências.
Eri – Se você gosta de mim, tire.
Edmundo
permite que ela lhe tire a roupa de urso. Fica nu. Érica o observa atentamente.
Comprova que realmente ele é o homem mais belo e encantador que já conheceu.
Edm – Cada vida, cada existência leva em si um fardo. O meu
foi maior do que a minha pessoa. Não podia suportá-lo. Não pude controlar as
consequências de meus atos. No entanto, tudo quanto fiz foi apenas viver como
sabia viver, como entendia o que era viver. Tudo quanto fiz foi somente aquilo
que me era próprio fazer. Mas como continuar vivendo, se para se viver é
preciso ser quem se é e fazer o que se faz, e ser eu mesmo e fazer o que eu
fazia era demais para mim?
Eri – Meu querido! Há tanta tristeza no que você está
dizendo!
Edm – Sinto um medo tremendo em viver. Mas não posso evitar
de viver. Sinto um tremendo medo da morte. É mais fácil viver sem viver. Estar
vivo e não ser ninguém. Perder a pessoa que se é ou que se foi. Eu era Edmundo.
Eri – Não fale assim.
Edm – Que importa como se fale?
Eri – Não pense, não sinta assim.
Edm – Que importa como se pense ou se sinta?
Eri
– Só queria que você não sofresse. Queria que fosse feliz.
Edm
– Que importa a felicidade?
Beijam-se
ardentemente. Ele se levanta. Chama-a para fora. Ela retira o lampião do prego
e vai atrás dele.
...
O
dia seguinte amanheceu de forma natural. A luz apareceu na hora certa. Os galos
cantaram na hora de costume. As vacas mugiram como faziam quase todas as
manhãs. Os pássaros cantaram. Júlio acordou na hora habitual. Sua maior
sensação era de desânimo. Levantou por hábito. Não sentia a menor vontade de
trabalhar. Era como se as ações houvessem perdido o sentido. Pegou um bule de
café na cozinha, colocou-o sobre a mesa da sala, mas não se serviu. Em vez,
parou junto à porta. Olhando o horizonte. Érica chegou sorridente. Usava o
vestido florido de Elisandra.
Eri
– Bom dia!
Júlio
se virou. Ao ver o vestido sua expressão se tornou sombria.
Jul – O que significa isso?
Eri – Não é formidável? O vestido de titia serviu em mim.
Jul – Seja o que for que estiver querendo dizer, não estou
gostando.
Eri – Não seja tão ranzinza tio!
Jul – Vá tirá-lo. Não lhe dei permissão.
Eri – Não posso. Hoje estou feliz. Não posso fazer conta de
suas repreensões.
Jul – O que há com você?
Eri – O senhor já se esqueceu por que vim? Vim para
reencontrar o passado. Vim para me reencontrar. Para recomeçar a minha vida do ponto
onde parei.
Jul – Como é?
Eri – Ah! Eu estou tão bem tio! Como nunca estive antes. Eu
já o perdoei. Ao senhor e a tia Elisandra. Posso até dizer que os amo. Amo-os
muito, muito, muito... o problema é que o senhor não suporta ver as pessoas
bem. Mas... eu voltei também para encontrar Edmundo. Não é o que o senhor
disse?
Jul – Vou obriga-la a tomar aquele trem e ir embora.
Caminha
em direção a ela. Ela o evita.
Eri
– Sabe por que estou feliz?
Ela
dá a volta na mesa gingando faceiramente.
Eri
– Estou feliz porque nesta noite encontrei Edmundo.
Ela
ri.
Eri – O senhor tinha razão. Ele é o homem mais encantador
que existe. Ele exerce um poder dominador sobre as pessoas. Ele é irresistível.
Ele é o urso mais atraente do mundo.
Jul – Sua vagabunda!
Ele
levanta a mão para lhe bater. Ela empurra seu braço.
Eri
– Foi o senhor quem matou tia Elisandra não foi?
Ele
a segura pelos pulsos. Nesse momento ouvem-se palmas lá fora. Os dois se
encaram. Ela pergunta outra vez mais baixo.
Eri
– Foi o senhor, não foi?
Alguém
surge à porta.
Voz
– Com licença!
Érica
se desvencilha das mãos dele e se ajeita. Ele sem jeito se volta em direção à
inesperada pessoa. É um rapaz elegante. Veste roupas da cidade.
Rap
– Seu Júlio!
Érica
finalmente olha para o rapaz que acabou de entrar.
Eri
– Tácito!
Tac
– Érica!
Eri
– O que você faz aqui?
Tac
– Vim busca-la.
Eri
– Mais essa agora!
Tácito
se dirige a Júlio.
Tac
– Desculpe-me por não cumprimenta-lo seu Júlio.
Aproxima-se
e lhe estende a mão.
Tac
– Como o senhor está?
Júlio
lhe aperta a mão.
Jul – Vou indo.
Tac – Desculpe-me por aparecer assim de surpresa, mas é que
Érica viajou sem avisar. Parecia até que estava fugindo. Estamos com o
casamento marcado para depois de amanhã. Os convites foram enviados. A festa
está preparada. Vim para leva-la de volta.
Jul – Eu já disse a ela para voltar.
Tac – Érica, por que você veio para cá assim?
Eri – Tio Júlio sabe. Pergunte a ele.
Tac – O que está acontecendo?
Todos
se olham.
Tac
– Seu Júlio. Diga-me o que há?
Jul
– Ela disse que sentiu saudades.
Eri
– Tio Júlio sabe que não são só saudades.
Tac
– Há algo mais?... Outra pessoa?
Jul
– Não se preocupe, ela o ama.
Eri
– Tio Júlio sabe quais são meus sentimentos.
Tac
– Vim para leva-la de volta.
Jul
– Ela vai voltar, posso lhe afirmar.
Eri
– Tio Júlio sabe que não posso. Há algo que me prende a esse lugar.
Tac
– Você precisa voltar comigo.
Eri
– Prefiro ficar.
Tac
– Não vou embora enquanto você não se decidir a voltar comigo.
Eri
– Não! Tio Júlio, não o deixe ficar.
Jul
– Só há um meio, você ir junto.
Eri
– Tácito, aqui não é um bom lugar para você.
Tac
– Como assim?
Jul
– Isso é algo que ela ouviu recentemente.
Eri – E descobri que, de acordo com o ponto de vista, pode
ser verdade.
Tac – Nós precisamos conversar.
Eri – Não! Não quero conversar com você. Tenho coisas mais
interessantes para fazer. Vou sair e andar por aí fora, pela frente da casa.
Érica
sai. Tácito pensa em segui-la, mas desiste. Olha para Júlio desolado.
Tac – O que aconteceu a ela?
Jul – Ela não está bem. Você precisa leva-la embora.
Tac – Parece que ela não quer ir.
Jul – Estou lhe avisando. Ela precisa ir o quanto antes.
Ficar aqui mais um dia pode ser ruim para ela.
Tac – Mas... como? Devo obriga-la?
Jul – Provavelmente isso será necessário.
Tac – Bem... não posso fazer isso.
Jul – Por que não?
Tac – É claro que a amo. Por isso estou aqui. Quero-a de
volta, mas não posso obriga-la a querer se casar comigo.
Jul – Escute rapaz. Vá atrás dela. Não ligue para o modo
como ela está agindo. Ela está sob influência do passado. De repente ela se
lembrou de muitas coisas que gostava e está tentando aproveita-las ao máximo, é
só isso. Você é a única pessoa que pode ajuda-la a perceber que ela tem um
grande futuro pela frente. Estudar, trabalhar, se tornar alguém, em vez de
ficar enterrada aqui nessa fazenda vendo o tempo passar. Você não pode
abandona-la agora, quando ela mais necessita de ajuda. Você precisa agir logo.
Não perca tempo.
Júlio
sai. Tácito impressionado o vê se afastar. Sente-se perdido. Anda pela sala
como quem não consegue decidir o que fazer. Depois se senta. Lucas aparece à
porta.
Luc
– Com licença.
Tac
– Ãh?
Luc
– Bom dia seu Tácito. Lembra-se de mim?
Tac
– Bom dia Lucas. Lembro sim, claro.
Luc
– Veio visitar seu Júlio?
Tac
– Sim... é... quer dizer... também vim visita-lo.
Luc – Sei... veio mais por causa de dona Érica não é?
Tac – É... foi. Tinha esperança de que ela quisesse voltar
comigo.
Luc – Seria bom.
Tac – Mas ela não quer.
Luc – Vi dona Érica saindo agora e me preocupei.
Tac – Ela foi para onde?
Luc – Foi pros lados do bambuzal. Mas não é por isso que me
preocupei não.
Tac – Não?
Luc – Não. Foi por causa do vestido que ela estava usando.
Era vestido de dona Elisandra, sabe?
Tac – Não sabia não.
Luc – O patrão pode não gostar.....
Tac – Sei...
Luc – Esses dias que dona Érica passou aqui, pensei que
fosse ser bom pra ela e pro patrão.
Tac – E não foi?
Luc – Quem pode dizer, não é? Eles têm tanta coisa guardada
no passado. Coisa que é bom não mexer. Pode machucar.
Tac – Aconteceu alguma coisa?
Luc – Não! Mas era bom que não acontecesse não é?
Tac – O que você está querendo dizer?
Luc – Seu Tácito leve dona Érica embora daqui. Esse lugar
não é bom para ela. Procure leva-la ainda hoje.
Tac – Eu gostaria muito Lucas, muito!
Tácito
olha para a porta.
Tac
– Para onde você disse que ela estava indo?
Luc
– Na direção do bambuzal.
Tácito
sai apressado. Lucas o observa. Depois olha a sala com tristeza e sai.
...
No
decorrer daquele dia começou a ventar. A princípio um vento fraco. Mas no final
da tarde estava tão forte que encurvava as árvores e provocava um assobio
assustador. Trouxe nuvens escuras, carregadas. Vez ou outra se ouvia uma
trovoada. O céu se acendia em relâmpagos. Quando Júlio chegou a casa estava
escura. Acendeu o lampião e o pendurou no prego de costume. Tácito chegou logo
em seguida.
Tac – O senhor a encontrou?
Jul – Não, e você?
Tac – Também não. Procurei o dia todo. Ela desapareceu ......................................
Parece que vai chover.
Jul – Não. Isso é só ameaça. É sempre assim. Faz alarde e
passa. Não cai uma gota. Amanhã o céu vai estar limpo, você vai ver.
Tac – O que aconteceu aqui durante esses dias?
Jul – Nada.
Tac – Érica está muito estranha.
Jul – Para mim ela está exatamente como há cinco anos.
Fascinada.
Tac – Não é perigoso ela estar lá fora a esta hora?
Jul – Nem tanto. Ela conhece tudo por aí. E depois, como eu
já disse, não vai chover. Se quer um conselho, não se preocupe, daqui à pouco
ela volta. Amanhã vocês conversam. O trem vai passar à tarde. Você vai
convencê-la a voltar para a capital. Tenho certeza.
Tac – Queria poder acreditar nisso.
Permanecem
alguns minutos olhando os relâmpagos.
Tac
– O senhor sabe e não quer me dizer.
Jul
– O quê?
Tac
– Porque Érica veio para cá quatro dias antes de nosso casamento.
Júlio
não responde.
Tac – Ela não me ama.
Jul – Ama sim.
Tac – Não. Nunca me amou. Agora eu sei. Durante anos
imaginei que ela me amasse. Na verdade, agora percebo que ela me usou. Há cinco
anos, quando começamos o namoro, ela era extremamente carinhosa se havia
pessoas por perto, mas era fria quando estávamos a sós. Quando percebi isso
fiquei decepcionado. Desmanchei o namoro e fui embora. Alguns meses depois ela
foi atrás. Disse que havia saído de sua casa. Voltamos a namorar. Durante cinco
anos ela tentou encobrir seus sentimentos dizendo que me amava. Eu fingia que
não percebia que ela fingia............................ o senhor sabe porque
ela voltou. O que a prende a esse lugar?
Jul – Vou arrumar um quarto para você.
Tac – Não é preciso. Vou ficar aqui na sala mesmo.
Jul – Vai passar a noite aí?
Tac – Vou ficar esperando por ela.
Jul – De qualquer forma vou arrumar o quarto. Se mudar de
ideia, é o segundo do corredor.
Júlio
sai para o quarto. Tácito fica esperando. Senta-se. Começa a sentir sono.
Deita-se no sofá. Adormece. Depois de algum tempo acorda, levanta-se e se
espreguiça. Resolve ir para o quarto. Várias horas depois Érica chega. Está com
frio. Observa o ambiente com cuidado. Satisfeita percebe que todos estão
dormindo. Vai até o armário e pega a chave. Dirige-se ao corredor. Em seguida
volta. Devolve a chave ao lugar e sai. Alguns minutos depois surge o urso. Vem
caminhando mansa e silenciosamente. Passa pela porta do corredor e segue ao
longo da mesa. Quando está próximo à porta de entrada, Tácito surge vindo do
corredor.
Tac
– Érica, é você?
O
urso se vira. Tácito se assusta. Dá alguns passos para trás. O urso caminha em
sua direção vagarosamente. Tácito está tão apavorado que não consegue fugir.
Quando chega bem próximo, o urso levanta uma pata e o acaricia.
Edm
– Tácito!
Tac
– Quem... quem... é?
O
urso se aproxima mais. Edmundo tira a máscara. Tácito vê seu rosto.
Tac
– Edmundo!!!
Edm
– Você também procura a felicidade?
Tac
– Oh sim... sim... a felicidade.... sim....
Fascinado
Tácito o ajuda a tirar o resto da roupa. Abraçam-se e se beijam. Edmundo pega o
lampião e o chama para fora. Tácito se deixa conduzir.
...
A
manhã seguinte chegou despretensiosa. Não prometia nada. O sol brilhou, mas não
muito. Fez calor, mas não demais. Os galos cantaram um pouco. As galinhas
cacarejaram, os cachorros latiram, mas não alto demais. Júlio se levantou ainda
com um resto de sono. Carregou água do poço para a bacia do vestíbulo. Estava
se lavando quando Lucas chegou alarmado.
Luc
– Seu Júlio! Seu Júlio!
Júlio
vem até a porta ainda molhado.
Luc
– Seu Júlio o senhor precisa vir comigo!
Jul
– Ir aonde?
Luc
– Até o celeiro.
Jul
– O que aconteceu?
Luc
– Seu Júlio, o senhor não vai acreditar!
Jul
– Acreditar em quê? Fique calmo e fale.
Luc
– Uma desgraça... aquele moço da cidade, seu Tácito... ele tá lá no celeiro.
Jul
– Sei... e daí?
Luc
– No mesmo lugar que os outros.
Jul
– Como é?
Luc
– Isso mesmo seu Júlio..... o urso voltou..... ele tá morto.....
Jul
– Como ele está?
Luc
– Tá horrível!
Júlio
parece preocupado.
Jul – Outra vez?..... Será que vai começar tudo de
novo?..... Lucas vá até a cidade chamar o padre.
Lucas
sai. Júlio vai até a parede onde estão os troféus. Olha a espingarda por um
instante, depois pega-a.
Jul
– Elisandra, Érica, Edmundo. Esses nomes com Es se tornaram minha perdição.
Sai
carregando a espingarda.
...
Algumas
horas depois Júlio recebe o padre Téo na sala.
Jul – Boa tarde padre.
Teo – Boa tarde seu Júlio.
Jul – Que bom que o senhor veio.
Teo – O que aconteceu? Lucas me disse que uma pessoa
morreu.
Jul – Sim.
Teo – Disse que é o Tácito, aquele rapaz que morou na vila
há um tempo. Disse que ele morreu como o Carlos.
Jul – Isso mesmo padre! Há novamente um urso rondando por
aqui. Mas o que Lucas não sabia quando saiu para chama-lo é que há mais uma
pessoa.
Teo – Há mais alguém?
Jul – Sim. São dois os mortos de hoje.
Teo – Quem é o outro?
Jul – Érica.
Teo – Não pode ser!
Jul – É inacreditável, não é?
Teo – Mas... como foi?
Jul – Ontem, depois de uma briga com o namorado, ela saiu.
Passou o dia fora. Também não voltou à noite. Esteve o tempo todo no relento. O
senhor sabe como a temperatura desce nesses dias em que se anunciam
tempestades. Pela manhã, quando a encontrei já não vivia mais.
Teo – É... é difícil de acreditar.
Jul – Venha comigo padre.
Saem
em direção aos quartos.
...
Assim
que começou a anoitecer pôde-se ouvir o canto dos grilos. Mais tarde um sapo se
pôs a coaxar. Em algum lugar dos telhados as pombas começaram a arrulhar
enquanto se ajeitavam nos ninhos. Uma coruja piou. Júlio acendeu o lampião e o
pendurou no prego. Sentou-se no sofá e se pôs a esperar. Alguns minutos depois
o urso chegou. Caminhou lentamente em sua direção e se sentou a seu lado. Júlio
o despiu, revelando a beleza de Edmundo.
Jul
– Meu querido! Agora você está seguro. Vou protege-lo para sempre, sempre...
E
beijou-o carinhosamente.
...